O uso de cuecas excessivamente apertadas tem sido associado a possíveis impactos na saúde reprodutiva masculina, especialmente na qualidade dos espermatozoides. Apesar de a cueca ser uma peça fundamental no vestuário masculino, oferecendo proteção, sustentação e higiene, sua escolha inadequada pode gerar efeitos indesejados relacionados à fertilidade. Especialistas explicam que peças muito justas podem elevar a temperatura dos testículos, uma condição que, embora não seja a única causa, pode interferir na produção de esperma.
Segundo o urologista Osei Akuamoa Júnior, do Hospital Santa Lúcia Norte, em Brasília, a temperatura na região dos testículos, localizada na bolsa escrotal, costuma ser cerca de dois graus Celsius abaixo da temperatura corporal. Essa diferença é essencial para a produção adequada dos espermatozoides, processo conhecido como espermatogênese. Quando a roupa impede a ventilação adequada ou retém calor excessivo, esse equilíbrio térmico pode ser comprometido, prejudicando a fertilidade masculina. “Tudo que pode causar interferência na temperatura testicular — como roupas muito apertadas, que retêm calor, ou exposição prolongada ao calor — pode afetar a produção de esperma”, explica o especialista.
A relação entre roupas íntimas de tecido sintético e saúde reprodutiva ganhou destaque a partir de estudos realizados na década de 1990 pelo pesquisador egípcio Ahmed Shafik. Esses estudos sugeriam que cuecas de poliéster poderiam prejudicar a saúde reprodutiva masculina. Contudo, os especialistas atuais afirmam que essas conclusões não se sustentam, uma vez que as pesquisas originais tinham limitações significativas, como amostras pequenas, uso de dispositivos diferentes do padrão de cueca comum e ausência de replicação dos estudos por outros grupos científicos ao longo de mais de três décadas.
De acordo com o urologista Marcelo Schneider Goulart, da clínica EndoUro em Florianópolis, o consenso científico contemporâneo não sustenta a hipótese de que o calor causado por cuecas de poliéster ou outros tecidos sintéticos prejudique a produção de espermatozoides de forma direta. O que pode ocorrer, na verdade, é um efeito indireto, relacionado ao aumento da temperatura na região devido ao uso de roupas muito justas ou feitas de materiais que retêm calor. O poliéster, por exemplo, tende a respirar menos e reter umidade, dificultando a dissipação do calor, especialmente em dias quentes ou quando o homem permanece sentado por longos períodos.
Além do impacto do vestuário, outros fatores contribuem para a diminuição da fertilidade masculina. Entre eles estão o consumo excessivo de álcool e cigarro, a obesidade, a idade avançada, varicocele, infecções e o uso de medicamentos ou anabolizantes. Especialistas também recomendam evitar exposições frequentes ao calor na região testicular, como o uso de saunas, banheiras muito quentes ou o hábito de trabalhar com notebooks apoiados diretamente no colo, que podem elevar a temperatura local de forma indesejada.
Por fim, os profissionais destacam que o material da cueca, em si, não possui impacto significativo na produção de espermatozoides. A orientação principal é optar por roupas íntimas confortáveis, que não sejam excessivamente apertadas e que proporcionem boa ventilação. Segundo o urologista Osei Akuamoa Júnior, não há evidências científicas robustas que relacionem o tipo de tecido utilizado na cueca com alterações na fertilidade masculina, reforçando a importância de escolhas de vestuário que priorizem o conforto e a saúde térmica da região.








