Após dois anos consecutivos de destaque do cinema brasileiro na disputa pelo Oscar, a edição de 2027 apresenta um cenário de maior incerteza na seleção do filme que representará o país na premiação. A Academia Brasileira de Cinema divulgou nesta semana a lista de seis produções que concorrem à vaga de representante brasileiro, mas, ao contrário dos ciclos de 2024 e 2025, quando havia favoritos claros, a disputa atual está mais equilibrada e sem um candidato absoluto.
Os títulos selecionados incluem “100 Dias”, de Carlos Saldanha; “A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai; “A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo; “Feito Pipa”, de Allan Deberton; “Nosso Segredo”, de Grace Passô; e “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins. Destes, apenas um será escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na próxima edição do Oscar, cuja cerimônia está agendada para 14 de março de 2027. Após essa decisão, o filme será encaminhado à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, responsável pela seleção dos candidatos ao Oscar de Melhor Filme Internacional.
Especialistas ouvidos pelo portal apontam que, entre os nomes com maior potencial de destaque na disputa, estão “Feito Pipa”, “100 Dias” e “Vicentina Pede Desculpas”, cada um com argumentos distintos que fortalecem suas posições. Paulo Camargo, doutor em Comunicação e Linguagens e professor na Escola de Belas Artes da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), destacou que “Feito Pipa” e “100 Dias” são os principais concorrentes no momento. Ele ressaltou que “Feito Pipa” possui apelo universal ao abordar temas como infância, afetos e relações familiares, além de conseguir dialogar com diferentes culturas. Já “100 Dias”, dirigido por Carlos Saldanha, tem vantagem por contar com um cineasta de carreira internacional consolidada, reconhecido especialmente na indústria norte-americana.
Por sua parte, Aianne Amado, doutora em Comunicação e crítica cinematográfica no portal Oxente Pipoca, destacou que “Feito Pipa” tem se beneficiado de sua exibição em festivais renomados, como Berlim e Gramado, embora tenha apontado uma possível limitação: o filme ainda não possui distribuidora, o que pode prejudicar sua circulação internacional e a campanha de divulgação no exterior. Em contrapartida, “Vicentina Pede Desculpas” tem ganhado força por ter sido realizado em parceria com a Netflix e por ter sido exibido no Festival de Toronto, evento que vem ganhando destaque no cenário de premiações ao redor do mundo. A estreia do filme está prevista para sábado (12/9), durante o festival.
Outro aspecto importante na análise da disputa é o impacto dos temas abordados pelos filmes. Juliana Cristina Borges Monteiro, professora de Cinema na Universidade Anhembi Morumbi, destacou que, além do valor estético, os temas de impacto global tendem a sensibilizar mais os votantes da Academia. Segundo ela, questões de relevância internacional têm maior capacidade de conexão com o público de Hollywood, enquanto temas mais regionais podem perder força na disputa.
No contexto recente, o Brasil conseguiu emplacar indicações ao Oscar por dois anos consecutivos, o que levanta a questão sobre a possibilidade de repetir esse desempenho em 2027. No entanto, os especialistas avaliam que essa probabilidade é baixa. Aianne Amado afirmou que os resultados anteriores foram casos atípicos, atribuídos a filmes de diretores já reconhecidos internacionalmente, com engajamento popular e campanhas de distribuição robustas, características que dificilmente se repetirão de forma semelhante.
Paulo Camargo reforça que a escolha de um filme para o Oscar vai além da qualidade artística, envolvendo uma campanha internacional forte, presença nos Estados Unidos e sessões voltadas aos votantes. Segundo ele, a visibilidade e o tempo de permanência na conversa pública são essenciais para o sucesso na premiação. Juliana Cristina, por sua vez, alertou para a necessidade de o cinema brasileiro manter sua autonomia e identidade, sem se moldar às expectativas da indústria de Hollywood, para evitar uma perda de sua essência cultural em busca de validação externa.







