A trajetória de um dos maiores ídolos da história do Cruzeiro quase não aconteceu. Antes de conquistar os títulos do Campeonato Mineiro, da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro em 2003, o ex-meia Alex viveu um período marcado por reviravoltas, conflitos e dificuldades nos bastidores da Toca da Raposa. Sua chegada ao clube, em 2001, ocorreu em meio a uma crise jurídica, com brigas judiciais, dispensa por telefone a pedido do técnico e um veto na Fifa, além de resistência da torcida. Essas circunstâncias adversas só foram superadas graças à perseverança do jogador e ao apoio de treinadores como Vanderlei Luxemburgo.
A relação de Alex com o Cruzeiro começou em 2001, em um cenário de grande instabilidade jurídica. O jogador chegou a Belo Horizonte a pedido do então técnico Paulo César Carpegiani, mas sua passagem inicial foi marcada por confusão. Ele relembra: “A história do Cruzeiro é meio picotada… O Parma e a Parmalat cassavam a minha liminar. Eu perdi dois jogos do Cruzeiro em que estava pronto para entrar. Chegava o oficial: ‘Não pode jogar’. Eu pronto para jogar, e o seu Benecy Queiroz falava: ‘Alex, a tua liminar está cassada’. Aquela loucura”, afirmou.
Além dos entraves burocráticos, o ambiente interno do clube se deteriorou rapidamente. A saída de Carpegiani e a passagem rápida de Ivo Wortmann deram lugar ao comando de Marco Aurélio, que carregava ressentimentos do período em que treinou o Palmeiras, alimentados por boatos de que Alex teria pedido sua demissão no clube paulista. Após ser liberado das férias com a promessa de permanecer na equipe para o ano seguinte, Alex foi surpreendido no aeroporto, em 4 de janeiro de 2002, por uma ligação do diretor do Cruzeiro, Eduardo Maluf, informando que Marco Aurélio não queria mais sua presença no time. “Ele falou: ‘As pessoas não querem te ver aqui. Manda um advogado, manda um procurador, mas não apareça aqui’. Fiquei sem solução”, relatou.
A situação se agravou no início de 2002, quando Alex foi suspenso pela Fifa por alegação de contrato duplo, envolvendo Parma e Cruzeiro. Temendo o fim precoce de sua carreira, o meia participou de uma reunião emergencial em Zurique, intermediada pelo advogado Marcos Motta, com o então diretor do Parma, Arrigo Sacchi. Após a resolução do impasse, Alex teve uma breve passagem pelo Palmeiras, retornando à Itália no meio do ano para rescindir seu contrato com o Parma de forma definitiva.
De volta ao Brasil, o destino quase o levou para outros clubes. O São Caetano tentou sua contratação, mas o técnico Mário Sérgio deixou claro que não utilizava meias, enquanto o Grêmio também fez uma oferta semelhante à do Cruzeiro. A decisão final passou pela opinião de sua esposa e do técnico Vanderlei Luxemburgo, que assumiu o comando do clube em setembro de 2002. Luxemburgo foi direto ao ligar para Alex e afirmar: “Ninguém quer você aqui no Cruzeiro, mas eu quero você aqui. Eu e as lideranças do time achamos que você pode nos ajudar”. A rejeição ao jogador não se limitava à diretoria, composta pelos irmãos Zezé e Alvimar Perrella, mas também à torcida e à imprensa local, que recebia sua contratação com desconfiança.
Para garantir sua permanência, Luxemburgo chegou a afirmar que, se Alex não correspondesse em campo, arcaria com seus próprios custos. A aposta do treinador se confirmou, e o meia liderou a equipe na conquista da Tríplice Coroa em 2003, composta pelos títulos do Campeonato Mineiro, da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro. Mesmo com o sucesso, a relação de Alex com a diretoria do clube permaneceu distante, marcada por ressentimentos, especialmente pela forma como foi dispensado em janeiro de 2002. Ele destaca que, apesar de o relacionamento ter se tornado mais respeitoso ao final, nunca houve uma conexão próxima.
Ao longo de sua passagem pelo Cruzeiro, Alex disputou 121 partidas, marcando 64 gols e contribuindo com 61 assistências. Sua atuação foi fundamental na conquista inédita da Tríplice Coroa, que elevou sua carreira ao status de ídolo. O auge de sua performance ocorreu em 2003, quando anotou 39 gols e deu 39 assistências em 63 jogos. Após conquistar o bicampeonato estadual em 2004, o jogador encerrou sua trajetória na Toca da Raposa em maio daquele ano, transferindo-se para o Fenerbahçe, da Turquia, por aproximadamente 5 milhões de euros, iniciando uma fase de sucesso na sua carreira internacional.







