Uma caminhada promovida pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) reuniu nesta sábado (19) transplantados, pacientes na fila de espera, familiares e profissionais de saúde na Praça da Assembleia, em Belo Horizonte. O evento, que marcou a 17ª edição da iniciativa intitulada “Caminhantes – Caminhada pelos Transplantes e pela Doação de Órgãos”, teve como objetivo ampliar a discussão sobre a importância da doação de órgãos e sensibilizar a sociedade para o tema.
O ponto alto da manhã foi o testemunho de Edelvais de Souza Melo, de 55 anos, que após uma cirurgia de quase nove horas, recebeu um fígado doado. Edelvais, autônomo, passou por um longo percurso que começou em 2019, quando sofreu um episódio de quase morte devido ao entupimento de artérias do esôfago, que revelou uma cirrose hepática. Após tratamento, foi incluído na fila de espera para transplante no ano seguinte e, após cerca de um ano e dois meses, recebeu o órgão. Sua história simboliza a esperança renovada de quem aguarda na fila de doadores.
A iniciativa busca levar o debate sobre a doação de órgãos para além do ambiente hospitalar, promovendo conscientização pública. Durante o evento, o coordenador do setor de transplantes do hospital, José Aparecido Rezende, destacou que a recusa familiar é um dos principais obstáculos para a doação no Brasil, chegando a 45% no país e aproximadamente 40% em Minas Gerais. Atualmente, Minas Gerais possui cerca de 8 mil pessoas na fila de espera, a segunda maior do país, atrás apenas de São Paulo, que tem aproximadamente 20 mil pacientes aguardando transplantes. No Brasil, o total de pessoas na fila ultrapassa 74 mil.
Rezende reforçou a necessidade de sensibilizar as famílias para a doação, ressaltando que mesmo quem manifesta a intenção de doar por meio da Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) necessita do aval de dois parentes após a confirmação da morte encefálica. O cirurgião João Bernardo, especialista em transplantes de fígado, complementou essa orientação, afirmando que o diálogo prévio sobre a vontade de doar aumenta significativamente as chances de realização do procedimento em caso de morte encefálica.
Participantes da caminhada também compartilharam suas experiências. Neidirene Cristina, de 41 anos, agradeceu à família que autorizou a doação do coração do irmão, Josinei Soares, após nove meses na fila de espera — período que ela compara ao tempo de uma gestação. Josinei completou um ano e seis meses de transplante, e Neidirene comemorou a melhora na qualidade de vida do irmão.
Varlene Gomes, de 52 anos, que recebeu um novo coração há dois anos e meio, também participou do evento pelo segundo ano consecutivo. Antes do procedimento, ela enfrentava fadiga extrema, chegando a precisar de uma cadeira dentro do chuveiro, devido a uma arritmia não resolvida. Hoje, ela afirma que sua vida melhorou significativamente e que, sem o transplante, não estaria presente na caminhada.
Outro exemplo de transformação é o de Edelvais de Souza Melo, que relata uma melhora física e emocional após o transplante. Ele conta que, atualmente, consegue ver seus pés ao olhar para baixo e que sua prioridade mudou: enquanto antes se preocupava com o resultado do seu time de futebol, agora se incomoda com questões mais sociais, como a remuneração de profissionais de saúde. Edelvais também destaca a importância de manter a doação como uma decisão consciente, lembrando que, após a morte encefálica, a autorização familiar é imprescindível para a realização do procedimento.
A mobilização contou ainda com estandes de aferição de pressão e colesterol, massagens, distribuição de camisetas, lanches, água e plantas, além de um monumento dedicado aos doadores de órgãos e tecidos de Minas Gerais, criado pelo escultor Léo Santana em 2014. A obra, que fica na Praça da Assembleia, recebe novas placas sempre que nomes de doadores são acrescentados, reforçando a homenagem e a memória daqueles que contribuíram para salvar vidas.









