Davi Lucca Gonçalves de Araújo, de 1 ano e 9 meses, morreu na quarta-feira (4), após ser levado ao Centro de Saúde Municipal Dr. Luiz Issa, em São José da Lapa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A família questiona a demora no atendimento e os procedimentos realizados pela equipe da unidade. O menino foi sepultado na quinta-feira (5).
Segundo Cassandra Lopes, mãe de Davi, a criança começou a vomitar e apresentou dificuldade para respirar na manhã de quarta-feira. Ela afirma que o filho não tinha histórico de problemas de saúde, estava com o cartão de vacinação atualizado e não apresentava sintomas de doença antes do episódio. Davi tinha um irmão gêmeo.
“Meu filho não estava doente, ele não saiu daqui doente. Nunca deixei de dar uma vacina. Desde quando eu estava grávida, eu tomei a vacina da bronquiolite”, relatou a mãe.
Cassandra contou que chegou à unidade com o menino em estado de piora. De acordo com ela, Davi chorava, demonstrava sentir dores e pedia água. A mãe afirma que precisou esperar pelo atendimento médico e que um funcionário informou que o profissional responsável estava ocupado com outro paciente.
“Ele estava chorando, gritando: ‘Ai, ai, ai, mamãe’, e só pedindo água. Aí o porteiro falou que o médico não podia atender porque estava com paciente. Eu gritei: ‘Mas meu filho está passando mal aqui’. E fiquei uma hora lá”, disse Cassandra.
Ainda conforme o relato da mãe, Davi perdeu a consciência enquanto era examinado. Antes de desmaiar, ele teria olhado para Cassandra e dito “mamãe”. Na sequência, a boca da criança teria ficado roxa.
“Na hora que ele foi colocar [o aparelho] no coração dele, o Davi desmaiou no meu colo. Mas ele não desmaiou, ele já estava morto. Ele morreu no meu colo. Ele olhou para o meu olho e falou: ‘Mamãe’, e desmaiou. A boca dele ficou toda roxa. Aí eu gritei: ‘Gente, meu filho está morrendo, pelo amor de Deus’”, relembrou.
Perícia deve esclarecer causa da morte
A declaração de óbito inicialmente emitida pelo centro de saúde indicou parada cardiorrespiratória provocada por insuficiência respiratória e bronquiolite viral aguda. A família contesta o diagnóstico e também a forma como o atendimento foi prestado.
Depois da morte, o corpo de Davi foi encaminhado ao Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte. O médico legista realizou uma nova avaliação e emitiu outra declaração de óbito, mas informou que exames complementares ainda são necessários para estabelecer a causa da morte.
A Prefeitura de São José da Lapa abriu um procedimento administrativo para apurar as circunstâncias do caso e analisar a conduta dos profissionais envolvidos no atendimento. A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) também instaurou uma investigação.
Prefeitura informa horários do atendimento
Em uma cronologia apresentada pela administração municipal, imagens das câmeras de segurança mostram que Davi e a família chegaram ao centro de saúde às 9h39. A triagem ocorreu às 9h53, e o primeiro atendimento médico foi registrado às 10h18.
Às 10h22, quatro minutos depois do atendimento inicial, a criança foi encaminhada para a sala de urgência. Segundo a prefeitura, foram iniciados no local procedimentos de emergência e reanimação. Uma equipe do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou à unidade às 11h35. A morte foi declarada às 12h34.
A Secretaria Municipal de Saúde informou que o centro utiliza o Protocolo de Manchester, método empregado para classificar o risco dos pacientes e definir a prioridade dos atendimentos.
Também será realizada uma auditoria clínica no prontuário de Davi. A análise deverá verificar se os sintomas apresentados foram avaliados de maneira adequada e se as medidas adotadas pela equipe foram compatíveis com o quadro. As oitivas dos funcionários que participaram do atendimento já começaram.
A prefeitura declarou que acompanha as apurações e que adotará as providências cabíveis após a conclusão dos procedimentos. Enquanto aguarda os resultados da investigação e dos exames complementares, Cassandra cobra esclarecimentos sobre o que ocorreu com o filho.
A mãe afirmou ainda que questionou o médico depois de ser informada sobre a morte da criança. Segundo ela, o profissional disse: “Seu filho morreu, mamãe, me desculpa. Eu fiz de tudo, mas ele morreu”. Cassandra respondeu: “Se você tivesse feito de tudo, você tinha salvado meu filho, porque meu filho chegou vivo aqui”.









