Uma série de casos de violência extrema contra mulheres em Belo Horizonte, incluindo o assassinato de uma policial militar e tentativas de feminicídio, destaca um problema persistente em Minas Gerais. De acordo com dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), entre janeiro e maio de 2023, o estado registrou 148 casos de feminicídio consumado ou tentado. Esse número representa uma leve queda em relação ao mesmo período do ano anterior, que contabilizou 149 ocorrências. Contudo, a diminuição se deve principalmente à redução de feminicídios consumados, que caíram de 70 para 63, enquanto as tentativas aumentaram de 79 para 85.
Esses dados revelam uma média alarmante de quase 13 mulheres vítimas de feminicídio por mês em Minas Gerais. Isso indica que, a cada dois dias e sete horas, uma mulher é assassinada apenas por ser mulher, frequentemente em contextos de violência doméstica, ciúmes e controle. Desde 2019, o estado não registrou menos de 149 assassinatos de mulheres por razões de gênero em um único ano. O pico ocorreu em 2023, com 186 mortes, seguido por 176 em 2022 e 169 em 2024.
As tentativas de feminicídio também se mantêm elevadas, com o maior número registrado em 2024, quando 248 mulheres sobreviveram a agressões. Em 2025, foram 207 tentativas, e os números permanecem preocupantes ao longo dos anos. A presidente da Comissão de Enfrentamento à Violência contra a Mulher da OAB-MG, Isabel Araújo Rodrigues, afirma que a sequência de casos recentes revela uma violência que nunca foi erradicada. Ela destaca que o feminicídio é o estágio mais extremo de um ciclo de violência que muitas vezes é ignorado por familiares e instituições.
Além dos feminicídios, o panorama de violência contra a mulher é ainda mais amplo. Entre janeiro e maio de 2023, 70.036 mulheres buscaram ajuda das autoridades após sofrerem violência, um aumento de quase 5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Em 2025, o total de vítimas de violência contra a mulher alcançou 154.196. Rodrigues argumenta que esses índices evidenciam uma cultura de violência que vai além do âmbito criminal, ligada a discursos de ódio e à falta de políticas públicas eficazes.
Os episódios recentes de violência em Belo Horizonte ilustram a gravidade do problema. Um caso notório envolveu uma mulher que sobreviveu após ser arremessada do terceiro andar de um prédio pelo companheiro. A vítima, que caiu sobre a laje do segundo andar, conseguiu deixar o local caminhando, embora tenha sofrido escoriações. O suspeito foi preso no local e encaminhado à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher.
Outro caso chocante foi o da capitã da Polícia Militar, Michele Leão Azevedo, que chegou sem vida ao hospital, levada pelo próprio marido, o terceiro-sargento Eduardo, que foi preso sob suspeita de feminicídio. A médica que a atendeu suspeitou da versão apresentada pelo militar, que alegou que a esposa havia se ferido durante um relacionamento consensual. A Polícia Civil investiga as circunstâncias que cercam a morte da policial, que, segundo relatos, era marcada por episódios de violência.
Além desses casos, o corpo de Stifanie Ribeiro Firmino Silva, de 35 anos, foi encontrado em seu apartamento após vizinhos estranharem seu desaparecimento. O namorado da vítima foi visto deixando o prédio com malas, levantando suspeitas que levaram à investigação. A relação do casal era recente, e a mulher havia enfrentado a perda da mãe, o que pode ter contribuído para sua vulnerabilidade.
Para Isabel Araújo Rodrigues, esses casos demonstram que o feminicídio geralmente é precedido por sinais de violência que são naturalizados. Ela também enfatiza que o aumento do acesso a armas de fogo representa um risco significativo, pois muitas vezes agrava a situação de violência doméstica. Rodrigues conclui que a desigualdade de poder nas relações pode intensificar a violência, especialmente quando a mulher conquista autonomia e espaço de poder.
A situação em Minas Gerais exige atenção e ação efetiva para enfrentar a violência contra a mulher, que se manifesta em diversas formas e continua a ser um desafio social e institucional.









