Minas Gerais registrou, em 2025, uma disparidade significativa entre o número de feminicídios e latrocínios, com quatro vezes mais mulheres assassinadas por motivos de gênero do que vítimas de roubos seguidos de morte. Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgados no final de julho, o Estado contabilizou 177 feminicídios no último ano, enquanto 44 pessoas perderam a vida após serem vítimas de roubos com morte, conhecidos como latrocínios. Esses números evidenciam um grave problema de segurança pública no Estado, especialmente relacionado à violência contra a mulher.
Minas ocupa a segunda colocação no ranking nacional de feminicídios, ficando atrás apenas de São Paulo, que registrou 270 casos no mesmo período. Em relação aos latrocínios, Minas aparece na sétima posição, empatada com o Paraná, enquanto São Paulo lidera com 131 ocorrências. Esses dados reforçam a urgência de ações específicas para o enfrentamento da violência de gênero, considerada uma das maiores preocupações na segurança pública mineira.
Especialistas destacam que o feminicídio não é um ato isolado ou repentino, mas o resultado de uma escalada de violência que muitas vezes pode ser evitada. Beatriz Schroeder, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que a morte de uma mulher por motivos de gênero é, na maior parte das vezes, o desfecho de uma trajetória de agressões que se intensificam ao longo do tempo. Ela reforça que esses crimes quase sempre apresentam sinais prévios, como controle excessivo, ciúmes, ameaças e humilhações, que podem e devem ser identificados para prevenir tragédias.
Schroeder destaca a importância da educação na prevenção, defendendo que o tema violência contra a mulher deve ser abordado desde a infância nas escolas, promovendo o entendimento de relacionamentos saudáveis e o reconhecimento de comportamentos abusivos. Além disso, ela aponta a necessidade de ampliar a rede de acolhimento às vítimas, garantindo que todos os equipamentos públicos estejam preparados para oferecer suporte às mulheres em situação de risco, não apenas os serviços especializados.
O combate ao feminicídio também exige uma abordagem cultural, conforme aponta Gedir Rocha, coronel da reserva da Polícia Militar e especialista em segurança pública. Para ele, embora ambos os crimes — feminicídio e latrocínio — resultem na morte da vítima, suas características distintas demandam estratégias diferentes de prevenção. O latrocínio, explica, geralmente ocorre por oportunidade durante um roubo e não está ligado a um padrão recorrente de comportamento do criminoso. Nesse caso, a orientação é evitar qualquer reação durante uma abordagem, manter a calma e não fazer movimentos bruscos.
Por outro lado, o feminicídio costuma ser o desfecho de uma sequência de violências, muitas vezes alimentadas por uma cultura que ainda atribui superioridade a homens em relação às mulheres. Rocha afirma que a mudança cultural, a educação e o fortalecimento das redes de proteção são essenciais para reduzir esses casos. Minas conta com iniciativas como a Patrulha de Prevenção à Violência Doméstica, que acompanha mulheres em situação de risco, mas o especialista ressalta que a atuação policial isolada não é suficiente. A prevenção requer a integração de diferentes setores, incluindo polícia, assistência social, Judiciário, escolas e a sociedade civil, que deve estar atenta e pronta para denunciar casos de violência.
A Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp) informa que diversas políticas de prevenção e enfrentamento à violência contra a mulher estão em andamento, envolvendo ações de assistência, acolhimento, proteção às vítimas e estímulo à denúncia. No combate aos latrocínios, as forças de segurança atuam de forma integrada por meio de ações de inteligência, investigação e repressão qualificada, com foco na redução da criminalidade e no fortalecimento da segurança pública.
Um dos canais mais utilizados para denúncias é a Central de Atendimento à Mulher Ligue 180, vinculada ao Ministério das Mulheres. O serviço, gratuito, funciona 24 horas por dia, oferecendo uma importante ferramenta de apoio às vítimas e de combate à violência de gênero.







