A Universidade Federal de Viçosa (UFV), localizada na Zona da Mata de Minas Gerais, inaugurou nesta terça-feira, 18 de outubro, o primeiro banco genético de cannabis sativa de uma instituição pública de ensino superior no Brasil. Com uma área de aproximadamente um hectare, o Banco Ativo de Germoplasma de Cannabis sativa L. (BAGC/UFV) visa ampliar as possibilidades de pesquisa, desenvolvimento de medicamentos, produção de fibras, materiais de construção e recuperação de solos degradados, potencializando o uso da planta como uma nova commodity agrícola.
O banco, situado no campus de Viçosa, no Vale da Agronomia, foi criado com a finalidade de identificar, catalogar e armazenar exemplares de cannabis provenientes de diferentes regiões do mundo. Esses materiais ficarão disponíveis para cruzamentos genéticos, permitindo a seleção de características desejáveis na criação de novas variedades adaptadas às condições brasileiras. A iniciativa reforça o compromisso da UFV com a pesquisa e inovação na área de ciências agrárias, consolidando sua posição como uma das principais referências do país nesse campo.
A instituição já possui uma vasta experiência com bancos de germoplasma, incluindo o de Hortaliças, considerado o mais antigo do Brasil, criado em 1966. Essa expertise, aliada à atuação do professor Derly Henriques da Silva, que há mais de duas décadas atua como curador do banco de Hortaliças, foi fundamental para que a UFV obtivesse, em 2024, medidas judiciais que permitiram a implementação do banco de cannabis. A legislação anterior restringia o uso da planta devido à sua potencialidade psicoativa, mas a universidade conseguiu, por meio de ações judiciais, estabelecer um marco legal que possibilita o estudo e a pesquisa com cannabis de forma controlada.
Segundo Henriques, a planta apresenta grande potencial comercial, especialmente por suas raízes profundas, que contribuem para a proteção do solo e podem ser cultivadas em áreas degradadas. Além disso, a biomassa produzida pela cannabis favorece o sequestro de gases de efeito estufa, contribuindo para ações de mitigação das mudanças climáticas. O cultivo da planta também apresenta vantagens por seu rápido crescimento, com flores produzidas em aproximadamente cinco meses, possibilitando o consórcio com outras culturas, como a soja, durante suas entressafras.
Os usos do cannabis vão além da produção de medicamentos. O caule e as folhas podem ser utilizados na fabricação de cânhamo, fibra que tem ampla aplicação na confecção de roupas e materiais de construção. As sementes, por sua vez, são ricas em proteínas e óleos, com potencial de aproveitamento nas indústrias alimentícia e farmacêutica. Nas flores, encontram-se os canabinoides, compostos de grande interesse para a indústria farmacêutica na produção de medicamentos comercializados globalmente, além de possibilitar o desenvolvimento de novos tratamentos.
Atualmente, o banco conta com 68 variedades de cannabis, todas provenientes da biodiversidade brasileira. O objetivo é ampliar esse número para 500, incluindo exemplares de diferentes países, por meio de coleta e classificação. Como a planta possui efeitos psicoativos, o local é protegido por equipamentos de segurança e monitorado constantemente pela Vigilância da UFV, garantindo a segurança do ambiente de pesquisa.
O financiamento para a implantação do banco foi viabilizado por meio de um convênio com a empresa Cannabreed Technology Brasil Ltda., demonstrando o interesse do setor privado em apoiar iniciativas científicas e tecnológicas relacionadas à cannabis. A iniciativa da UFV representa um avanço na pesquisa brasileira sobre a planta, ampliando as possibilidades de uso sustentável e regulamentado do cultivo de cannabis no país.








