A inteligência artificial pode afetar cerca de 40% dos empregos da economia mundial nos próximos três a cinco anos, afirmou a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. Durante um evento do Santander, a dirigente comparou os efeitos da tecnologia a um “tsunami lento” e alertou que os riscos podem superar os benefícios caso governos, empresas e trabalhadores não se preparem para as mudanças.
Segundo Georgieva, o avanço da inteligência artificial deverá provocar uma transformação significativa no mercado de trabalho em um período considerado curto. Empresas poderão ser redefinidas, redesenhadas ou até mesmo eliminadas, enquanto os profissionais terão de desenvolver novas habilidades para se adaptar às exigências de uma economia mais dependente da tecnologia.
Apesar dos riscos, a diretora do FMI destacou que a inteligência artificial também tem impulsionado um forte ciclo de investimentos. Esse movimento ocorre de forma circular, com empresas investindo em outras companhias ligadas ao setor e formando uma cadeia de aportes. Para Georgieva, esse boom de investimentos representa um dos principais efeitos positivos associados ao avanço da tecnologia.
FMI prevê aumento da dívida pública global
Durante o debate, Georgieva também avaliou a situação da economia mundial. Ela afirmou que o cenário global tem demonstrado uma resiliência considerada “incrível”, mesmo após uma sequência de choques econômicos. Ao mesmo tempo, porém, a dívida pública mundial se aproxima de 100% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o custo para refinanciar esses compromissos aumenta.
O FMI projeta que a relação entre dívida pública e PIB alcance 100% em 2029, nível que não é registrado desde a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, a média global está entre 95% e 96%. Entre as economias desenvolvidas, alguns países já apresentam índices superiores a 100%, como os Estados Unidos, com 120%, e a França, com 113%.
“O crescimento por si só não vai nos tirar da trajetória de alta da dívida pública; é preciso disciplina fiscal”, afirmou a dirigente. De acordo com Georgieva, a combinação entre crescimento econômico e redução de gastos continua sendo a recomendação básica para conter o endividamento. No entanto, diante do quadro atual, apenas uma expansão da economia não será suficiente.
“Não sou grande confiante de que o crescimento pode nos tirar do buraco da dívida por si só. Portanto, isso exigiria também medidas fiscais, basicamente, e quanto mais cedo a ação for tomada, melhor”, disse.
Custo do serviço da dívida preocupa governos
Georgieva afirmou que o aumento da inflação e das taxas de juros tem elevado o custo do serviço da dívida, tornando a situação mais difícil para os governos. O efeito também alcança empresas e famílias, que enfrentam condições financeiras mais restritivas.
Na Europa, segundo a diretora do FMI, os países que apresentam desempenho melhor são aqueles que mantiveram maior disciplina fiscal, especialmente Irlanda, Portugal e Grécia. Ela afirmou que esses países aprenderam “da forma mais dura” a importância do controle das contas públicas.
A dirigente também avaliou que os preços de energia e alimentos devem continuar em trajetória de alta, porque a pressão sobre os custos de energia permanece. Nesse ambiente, os rendimentos tendem a subir, o que reforça a necessidade de os governos adotarem medidas para proteger a população dos custos excessivos do serviço da dívida.
“O que é pior é que o custo do serviço da dívida com a inflação, elevando as taxas, está se tornando sufocante para os governos e, claro, é ruim para os negócios, ruim para as famílias”, declarou.
Ao comentar o cenário internacional, Georgieva lembrou que a economia mundial passou por “choques dramáticos”. Paralelamente, os governos aumentaram os gastos com defesa e com medidas destinadas a atender demandas sociais. Nesse contexto, ela ressaltou que os países que têm apresentado melhor desempenho são aqueles mais intensivos no uso de inteligência artificial.








