A Igreja Ortodoxa Russa enviou à linha de frente do conflito na Ucrânia um fragmento da mão direita de Dmitry Donskoy, príncipe medieval conhecido por sua vitória na Batalha de Kulikovo em 1380 contra as forças da Horda Dourada. A relíquia, considerada santa pela igreja, foi levada ao memorial de guerra de Savur-Mohyla, na região de Donetsk, território atualmente sob controle russo, em uma cerimônia que reuniu autoridades civis, militares e religiosos. O objetivo é fortalecer espiritualmente os combatentes e reforçar o moral das forças russas na luta contra a Ucrânia.
O fragmento foi extraído recentemente dos restos mortais de Donskoy, cuja localização original de sepultamento na Catedral do Arcanjo, no Kremlin, foi confirmada após obras de restauração. A descoberta surpreendeu historiadores, pois os restos foram encontrados em uma cripta junto à parede sul do templo, posição que contrariou expectativas. Segundo a Igreja, o corpo do príncipe, que morreu em 1389 aos 39 anos, estava bem preservado e compatível com registros históricos, indicando que os restos pertenciam a um homem de aproximadamente 1,80 metro de altura, falecido entre 35 e 45 anos.
Donskoy governou os principados de Moscóvia e Vladimir, ampliando seu território e iniciando a construção da primeira fortaleza de pedra do Kremlin. Sua principal marca histórica é a vitória na Batalha de Kulikovo, episódio que simboliza a resistência russa ao domínio mongol. Sua figura foi canonizada pela Igreja Ortodoxa Russa em 1988, tornando-se uma referência tanto religiosa quanto nacionalista. O nome do príncipe foi utilizado até na Segunda Guerra Mundial, quando uma coluna de tanques soviéticos recebeu sua homenagem.
A identificação dos restos mortais ocorreu após uma visita do presidente Vladimir Putin ao local, em agosto, quando ele examinou o sarcófago aberto e afirmou que a descoberta reforçava os alicerces da história russa. A partir dessa confirmação, a Igreja retirou um fragmento da mão direita de Donskoy, que foi colocado em um relicário ornamentado, protegido por vidro reforçado, e enviado para diferentes unidades militares na linha de frente, que se estende por mais de 1.000 km.
A iniciativa, que combina elementos religiosos e militares, visa proporcionar um simbolismo de proteção e vitória às tropas russas. Segundo o metropolita Vladimir de Donetsk e Mariupol, a relíquia representa uma bênção de Deus e uma ajuda espiritual necessária para os combatentes do Donbas, região de forte simbolismo para Moscou. A cerimônia de apresentação ocorreu em Savur-Mohyla, memorial de guerra na região de Donetsk, que tem sido palco de eventos patrióticos e militares desde o início do conflito.
A utilização de relíquias de figuras históricas na guerra atual não é uma prática inédita. No início de 2026, relíquias de Alexandre Nevsky, outro príncipe venerado pela Igreja Ortodoxa Russa como herói militar, também foram enviadas às forças russas. Essa mobilização simbólica ocorre em um contexto de apoio explícito da Igreja Ortodoxa Russa ao esforço de guerra do Kremlin, que desde fevereiro de 2022 tem contado com o envolvimento de religiosos em unidades militares e territórios ocupados, além de orações pelas forças russas.
Contudo, a iniciativa de abrir o túmulo de Donskoy e retirar uma relíquia décadas após sua canonização tem recebido críticas. Especialistas questionam a decisão de remover os restos mortais, mesmo com o conhecimento do local de sepultamento, além de contestar o momento político e militar em que a ação foi realizada, levantando debates sobre o uso de símbolos religiosos em tempos de conflito.









