O ex-presidente do Paraguai Santiago Peña está detido desde sexta-feira (6), após ser submetido a um processo de impeachment e passar a ser investigado por possível responsabilidade na crise bancária desencadeada pela quebra do Ueno Bank. Ele foi levado ao Regime Escolta Presidencial (REP), em Assunção, onde ocupa um dormitório comum, sem grades. O ex-presidente pode usar o celular e receber visitas durante a detenção.
As informações sobre o local foram divulgadas pelo comandante do REP, coronel José Dayub, em entrevista à rádio paraguaia 1020 AM. De acordo com o militar, o quarto destinado a Peña tem uma porta convencional, mantida trancada com chave, mas não possui grades. A unidade funciona como uma instalação de escolta e segurança presidencial, e não como um presídio. Por isso, não há outros detentos no local nem estrutura penitenciária regular.
A prisão foi determinada depois de uma sucessão de decisões políticas e judiciais. Na véspera da votação do impeachment, Peña havia encaminhado ao Congresso uma carta na qual comunicava sua renúncia à Presidência. A Constituição paraguaia, porém, atribui ao Congresso a competência para aceitar ou rejeitar a renúncia do chefe do Executivo. No caso do ex-presidente, os parlamentares rejeitaram o pedido.
Na sexta-feira (6), o Senado aprovou a abertura do processo de impeachment. A decisão retirou a imunidade parlamentar de Peña e, em seguida, ele foi detido. A previsão inicial era de que o ex-presidente cumprisse a medida em sua residência, mas manifestações e protestos fizeram com que a Polícia Nacional o transferisse para o Regime Escolta Presidencial.
No dia seguinte, sábado (7), Peña não aceitou prestar depoimento à Promotoria e ao tribunal. Também no sábado, o juiz Humberto Otazú determinou a prisão preventiva, conforme pedido apresentado pelos promotores. Entre os argumentos usados para justificar a medida está o risco de fuga. A possibilidade foi associada ao fato de Peña manter residências e contas no exterior.
Otazú também ordenou o bloqueio dos bens e das contas bancárias de Peña e de Carlos Carvallo, ex-presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), que foi preso dentro da mesma investigação. O caso procura esclarecer possíveis irregularidades ligadas ao Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras paraguaias e o principal banco digital do país.
Instituição administrava recursos públicos
Antes do encerramento das atividades, o Ueno Bank administrava quase US$ 850 milhões, montante equivalente a aproximadamente R$ 5 bilhões. Entre os recursos estavam valores da Previdência e do Ministério da Saúde. O banco reunia cerca de 3 milhões de clientes.
A instituição deixou de operar na terça-feira (3), depois que o Banco Central iniciou, na segunda-feira, o processo de liquidação. A autoridade monetária identificou um déficit nos índices de solvência do banco. O problema estaria relacionado a empréstimos concedidos a empresas vinculadas à própria instituição.
Peña foi acionista do grupo controlador do Ueno Bank até março de 2025. A ligação anterior com o conglomerado se tornou um dos principais pontos das acusações feitas pela oposição. Os adversários políticos do ex-presidente apontam possíveis conflitos de interesse, manipulação regulatória, desvio de recursos previdenciários e tentativa de encobrimento institucional por parte do Banco Central.
Na quinta-feira (5), o Ministério Público do Paraguai abriu uma investigação contra Peña para apurar suspeitas de irregularidades envolvendo o banco. O órgão também pediu à Seprelad, Secretaria de Prevenção à Lavagem de Dinheiro ou de Bens, documentos financeiros e societários relacionados aos 27 denunciados e às 20 empresas mencionadas no caso.
A crise provocou ainda mudanças na direção do sistema financeiro paraguaio. Na última semana, Carlos Dagoberto Carvallo Spalding renunciou à presidência do Banco Central. Durante as apurações, oito diretores do Ueno Bank também foram presos.
Aos 47 anos, Santiago Peña deixou a Presidência e passou, em poucos dias, à condição de investigado e preso preventivamente. O episódio reúne uma crise política, suspeitas de irregularidades financeiras e questionamentos sobre a fiscalização exercida pelo Banco Central sobre uma instituição que administrava bilhões de dólares em recursos públicos.







