A Polícia Federal formalizou no Supremo Tribunal Federal (STF) o indiciamento de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do extinto Banco Master, do ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB) Paulo Henrique Costa e de outros 13 investigados. O grupo é apontado como responsável por irregularidades relacionadas à venda de R$ 17,5 bilhões em carteiras de crédito do Master para o banco público entre julho de 2024 e outubro de 2025.
De acordo com a investigação, pelo menos R$ 12,2 bilhões dos ativos transferidos não tinham comprovação adequada de existência. A apuração identificou operações de crédito que, segundo a PF, não estavam respaldadas por contratos ou por documentação capaz de confirmar a origem e a validade dos empréstimos.
Os investigados foram indiciados pelos crimes de gestão fraudulenta, indução de investidores a erro, fraude à fiscalização bancária, integração em organização criminosa e lavagem de dinheiro. O indiciamento representa a conclusão da análise da Polícia Federal sobre a participação dos envolvidos no esquema investigado no inquérito em tramitação no STF.
Planilhas teriam simulado créditos consignados
No documento encaminhado ao Supremo, a PF afirma que a administração do Banco Master utilizou planilhas eletrônicas para simular a existência de créditos consignados. A medida teria sido adotada com o objetivo de contornar restrições de liquidez e exigências estabelecidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Segundo a corporação, carteiras de empréstimos sem respaldo em operações reais foram inseridas nos sistemas internos do banco. Com base nessas informações, o Master emitia Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) sem a documentação correspondente. Os títulos eram então registrados na Bolsa de Valores e posteriormente repassados ao BRB.
O procedimento permitia a transferência de recursos financeiros do banco público para a instituição privada. A investigação busca esclarecer como os ativos foram apresentados, aprovados e adquiridos, além de identificar a responsabilidade de cada um dos envolvidos nas operações.
BRB teria adquirido ativos sem checagem suficiente
A Polícia Federal também apontou falhas na atuação da cúpula do BRB. Conforme o relatório, normas internas e diretrizes de controle teriam sido descumpridas durante a compra das carteiras de crédito. O banco público teria realizado as aquisições sem promover auditoria adequada nem confirmar a existência física dos devedores e dos contratos associados aos ativos.
As operações foram divididas em lotes de até R$ 750 milhões. Para a PF, o fracionamento mantinha as decisões no âmbito da Dicol, a Diretoria Colegiada do BRB, e evitava que as aquisições fossem submetidas ao Consad, o Conselho de Administração da instituição.
A corporação afirma ainda que a diretoria manteve a sequência de compras mesmo depois de relatórios da área de riscos indicarem problemas de liquidez. Os documentos apontavam queda do Índice de Liquidez de Curto Prazo para patamares inferiores aos limites regulatórios.
Quando foram identificadas pendências operacionais em determinados lotes, o BRB teria aceitado substituir os papéis por novos pacotes de ativos de origem considerada duvidosa. Com isso, a exposição financeira do banco público foi mantida até a intervenção do Banco Central.
Origem dos ativos teria sido atribuída a entidades diferentes
Após o Banco Central questionar a origem do volume expressivo de ativos, os investigados teriam apresentado justificativas inconsistentes, segundo a PF. Inicialmente, os créditos foram atribuídos a duas associações de servidores públicos da Bahia: a ASTEBA e a ASSEBA.
Posteriormente, a origem dos ativos foi relacionada à empresa Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações S.A. Perícias técnicas realizadas no curso da investigação apontaram que a companhia funcionava como uma empresa de fachada, também descrita como “empresa de prateleira”.
De acordo com os peritos, a Tirreno não possuía capacidade operacional, quadro funcional compatível nem movimentação financeira real para sustentar o volume de créditos atribuído a ela. A empresa operava por meio de uma conta de repasse mantida no próprio Banco Master, circunstância que também passou a integrar a apuração da Polícia Federal.









