Dois dias após o temporal que provocou danos na rede elétrica de Minas Gerais, mais de 30 mil clientes ainda permanecem sem energia em todo o estado. Em Belo Horizonte, 8.765 imóveis continuam afetados. A Cemig informou que mais de quatro mil profissionais estão mobilizados para restabelecer o fornecimento, mas moradores e comerciantes relatam prejuízos, perda de alimentos e falta de informações sobre a previsão de normalização.
No bairro Pompeia, na região Leste da capital, uma moradora está sem energia desde a tarde de domingo (25/10). Com receio de perder os alimentos armazenados, ela afirma que tem evitado abrir a geladeira e o congelador. Segundo a moradora, diversos chamados foram registrados por pessoas da rua onde vive, mas a Cemig não informou quando o serviço será retomado.
“Desde domingo, por conta do temporal, acabou a luz. Nós abrimos diversos chamados e a Cemig informou apenas que mais de 40 mil pessoas estavam sem luz. Hoje eu liguei na Cemig e disseram que ainda não tem equipes na nossa região. O meu congelador está cheio de comida, todos os alimentos estão descongelando e, se continuar assim, vão acabar estragando”, relatou.
A falta de energia também atingiu estabelecimentos comerciais que dependem de refrigeração e de equipamentos elétricos para funcionar. A proprietária da Camp Town Burger, Scarlet Isvetcoff, contou que a hamburgueria, localizada na avenida Silviano Brandão, no bairro Horto, está sem luz desde domingo. Parte dos alimentos refrigerados já precisou ser descartada.
De acordo com Scarlet, a empresa recebeu previsões de que o fornecimento seria restabelecido no próprio domingo, mas os prazos não foram cumpridos. “No domingo, quando abrimos o chamado, a Cemig informou que a situação seria normalizada no mesmo dia às 21h. O prazo passou e nada foi feito. Na segunda-feira, após um novo acionamento, eles informaram que seria às 22h e também não resolveram”, afirmou.
A empresária avalia que a falta de informações mais precisas ampliou os prejuízos. Segundo ela, se soubesse desde o início que a interrupção poderia durar vários dias, teria retirado os alimentos do estabelecimento. Além da perda de insumos, a hamburgueria deixou de funcionar no domingo, considerado um dos dias de maior movimento.
O estabelecimento também esperava um fluxo acima do habitual por causa do segundo turno das eleições e havia contratado mais funcionários para atender à demanda. Sem energia, no entanto, não conseguiu abrir. A estimativa inicial é de um prejuízo de aproximadamente R$ 15 mil, considerando as vendas não realizadas desde domingo e a possibilidade de o restaurante continuar fechado.
Entre os itens perdidos estão molhos, preparações, saladas que já estavam prontas e higienizadas, além de cremes para sorvete. “Além do faturamento perdido, tivemos prejuízos com praticamente todos os itens refrigerados”, explicou Scarlet.
Na mesma avenida, a Sodiê Doces Horto também enfrenta consequências da interrupção. O proprietário, Cláudio Mercini, informou que já descartou cerca de 50 bolos e 40 quilos de recheio. O prejuízo estimado pelo comerciante chega a R$ 30 mil.
“A situação é caótica. Nós tivemos que jogar tudo fora, tivemos alguns equipamentos danificados e ainda estamos tendo o gasto de contratar um gerador de energia para manter o que tenho aqui dentro, para não perder também”, desabafou Mercini.
O comerciante disse compreender que o temporal afetou diferentes áreas da cidade, mas criticou a ausência de informações objetivas por parte da Cemig. Segundo ele, os comerciantes não sabem quais regiões estão sendo priorizadas nem têm uma previsão segura para o retorno do serviço.
“Nós não temos um parecer certo da companhia. Também não sabemos se eles estão falando a verdade, se estão priorizando alguma região da cidade. São três dias que parecem ser intermináveis. Eu não vi nenhum carro da Cemig aqui nesses três dias. Não sabemos o que fazer, estamos gritando, mas parece que o pessoal não quer escutar”, afirmou.
Cemig afirma que 98% dos imóveis já tiveram o fornecimento restabelecido
Em nota divulgada na manhã desta terça-feira (27/10), a Cemig informou que 98% dos imóveis afetados já tiveram a energia restabelecida. A empresa afirmou que os trabalhos continuaram durante a noite de segunda-feira (26/10) e prosseguiram ao longo desta terça, com a reconstrução de trechos da rede, a substituição de equipamentos danificados e a retirada de árvores e galhos que caíram sobre a fiação.
A companhia declarou que mantém equipes e recursos mobilizados para acelerar a normalização do serviço. Segundo a Cemig, algumas ocorrências exigem intervenções mais complexas devido à necessidade de recompor estruturas da rede elétrica.
“A Cemig reforça que mantém todos os esforços e recursos disponíveis para agilizar a normalização do fornecimento de energia aos consumidores ainda afetados. A companhia destaca que, diante da dimensão dos danos provocados pelo evento climático histórico, algumas ocorrências exigem intervenções mais complexas, incluindo a recomposição de estruturas da rede elétrica, mas as equipes permanecem mobilizadas para restabelecer o serviço com a maior agilidade e segurança possíveis”, informou.
Logo após o temporal, na manhã de segunda-feira, a Cemig havia informado que 45 mil imóveis em Belo Horizonte tinham sido afetados pela pane na rede elétrica. Em todo o estado, aproximadamente 640 mil clientes ficaram sem luz. Conforme a empresa, foi o evento climático de maior impacto sobre o sistema de distribuição nos últimos 74 anos.
Os danos também foram associados a uma rajada de vento de intensidade excepcional. Em Patos de Minas, na região do Alto Paranaíba, a ventania chegou a 150 km/h. Em Belo Horizonte, a velocidade alcançou 90 km/h. A Cemig afirmou que a combinação de raios, ventos fortes e quedas de árvores danificou a infraestrutura elétrica e dificultou o trabalho das equipes em campo.








