A operação Carbono Oculto, conduzida há exatamente um ano pela Polícia Federal (PF) em parceria com a Receita Federal (RF) e o Ministério Público de São Paulo (Gaeco), permanece como uma das principais investigações em andamento relacionadas ao crime organizado, ao mercado de combustíveis e ao sistema financeiro brasileiro. Iniciada em agosto de 2024, a ação teve como foco principal desmantelar um esquema de adulteração de combustíveis, lavagem de dinheiro e atividades ilícitas vinculadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC), ampliando posteriormente sua análise para estruturas de fundos de investimento, intermediação financeira e mecanismos de circulação de recursos.
Segundo informações do Ministério Público (MP), a operação atingiu mais de 350 alvos, incluindo pessoas físicas e jurídicas atuantes em diferentes segmentos da cadeia de combustíveis, desde a distribuição e revenda até a circulação de insumos químicos utilizados na adulteração de gasolina. As investigações revelaram que, no núcleo operacional, empresas do setor de combustíveis eram utilizadas para aquisição e desvio de metanol, que posteriormente era empregado na adulteração de combustíveis na Região Metropolitana de São Paulo. Parte dessas empresas também funcionava como instrumentos para a circulação de recursos financeiros, emissão de documentos fiscais e reinserção de valores no sistema financeiro, dificultando o rastreamento das operações ilícitas.
No âmbito criminal, a denúncia do MP aponta que 16 pessoas estão sendo acusadas de participação em uma organização criminosa responsável por adulterar combustíveis, além de crimes tributários, estelionato, falsidade documental e lavagem de dinheiro. Há indicações de vínculos com o PCC, evidenciando a complexidade e a escala do esquema. As investigações também apontam para a existência de uma estrutura organizada, com divisão de funções entre empresas operacionais, transportadoras e intermediários financeiros, o que dificultava a identificação dos beneficiários finais das operações ilícitas.
A partir das fases subsequentes, o foco das apurações se ampliou para o mercado financeiro, especialmente em fundos de investimento, gestoras e veículos de intermediação de crédito. Relatórios e comunicações internos indicam que fundos gerenciados pela Reag Investimentos teriam sido utilizados em operações relacionadas às empresas investigadas, configurando um esquema de lavagem de dinheiro que envolvia a circulação de recursos por meio de estruturas financeiras complexas. Documentos do Banco Central (BC) e do MP revelam que, ao menos, quatro fundos sob administração da Reag aparecem associados a fluxos financeiros suspeitos.
Investigações paralelas, envolvendo o Banco Master, indicam que esses fundos também participaram de operações de compra e venda de ativos e na estruturação de carteiras de crédito, levantando questionamentos sobre avaliação de ativos e circulação de recursos entre veículos financeiros. Essas ações marcaram uma das primeiras vezes em que uma investigação criminal atingiu de forma direta estruturas de gestão de recursos e fundos de investimento no mercado de capitais, demonstrando o grau de sofisticação do esquema.
A operação também cumpriu mandados contra postos de combustíveis e fintechs controlados pelo PCC, evidenciando a abrangência do esquema criminoso. Os relatórios indicam que o grupo passou a operar com modelos financeiros mais sofisticados, utilizando múltiplas camadas societárias e financeiras, com o objetivo de reduzir a rastreabilidade e ocultar os beneficiários finais. Fundos de investimento e veículos de crédito, muitas vezes, foram utilizados por empresas sem atividade operacional compatível com o volume de recursos movimentados, além de apresentarem crescimento patrimonial acelerado em curto período, o que foi considerado um indício de operações atípicas.
Ao longo do último ano, as investigações resultaram em diversas denúncias criminais por adulteração de combustíveis, organização criminosa, lavagem de dinheiro e crimes tributários. Recentemente, o MP denunciou envolvidos pelo esquema de desvio de metanol, utilizado na adulteração, por meio de empresas intermediárias e estruturas financeiras. As apurações continuam ativas, incluindo análises de vínculos entre empresas do setor de combustíveis e as estruturas financeiras suspeitas.
Em resposta às investigações, o Banco Central reforçou sua atuação na supervisão de instituições financeiras e veículos de crédito, adotando medidas para prevenir a lavagem de dinheiro e fortalecer a governança de estruturas não bancárias, como fundos de investimento e prestadores de serviços financeiros. Essas ações representam um endurecimento do arcabouço regulatório, com o objetivo de evitar que esquemas similares se repitam.
Um ano após sua deflagração, a operação Carbono Oculto permanece como uma das principais investigações que evidenciam a complexidade do crime organizado no Brasil, com impactos diretos sobre o mercado financeiro, a cadeia de combustíveis e a regulação do setor. Os desdobramentos criminais e regulatórios continuam a evoluir, destacando a necessidade de maior vigilância e controle sobre estruturas financeiras utilizadas para fins ilícitos.









