A terceira onda de protestos sociais na França levou mais de 320 mil pessoas às ruas neste sábado (31), segundo as autoridades. As organizações convocantes — estudantes, sindicatos e integrantes do movimento dos “coletes amarelos” — estimaram a participação em cerca de 500 mil pessoas em todo o país. A mobilização ocorreu predominantemente de forma pacífica, mas confrontos entre manifestantes e policiais provocaram 296 prisões.
Os números divulgados pelos organizadores ficaram abaixo da estimativa de 800 mil participantes registrada no sábado anterior. Já as autoridades haviam informado que 410 mil pessoas participaram dos protestos em 24 de outubro. A diferença entre as contagens oficiais e as apresentadas pelas entidades responsáveis pela convocação voltou a marcar o balanço da mobilização.
A Intersindical Juvenil também calculou em aproximadamente meio milhão o total de manifestantes. Para Jean-Luc Mélenchon, líder do partido de esquerda La France Insoumise e candidato à Presidência, o tamanho dos atos demonstrou que o movimento manteve sua força, apesar das dificuldades impostas à organização.
“Apesar das estações de metrô fechadas, de uma semana de campanha da mídia oficial destinada a semear o pânico e de uma mudança no local da concentração, a multidão foi igualmente numerosa nesta semana. E igualmente disciplinada”, afirmou Mélenchon.
O político criticou o que classificou como uma tentativa de minimizar a quantidade de participantes. Segundo ele, essa postura contribui para que o presidente Emmanuel Macron prolongue o impasse com os manifestantes. “Quanto mais alto ele subir, mais dura será a queda. Ele terá que ceder ou se retirar”, declarou.
Estudantes mantêm críticas ao governo
Os estudantes, que deram origem à atual onda de protestos, também afirmaram que as medidas anunciadas pelo governo não atendem integralmente às reivindicações do movimento. François Pozzo di Borgo, secretário-geral do Sindicato Nacional Força Trabalhista – Liceus e Escolas Secundárias (SNFOLC), disse que os compromissos apresentados até o momento representam apenas mudanças pontuais.
“Por enquanto, o que o governo propõe são principalmente ajustes”, afirmou ele em entrevista à emissora BFMTV. De acordo com o dirigente, as autoridades não atenderam às demandas centrais, entre elas a revogação do sistema de acesso ao ensino superior Parcoursup e da mais recente reforma legal para o ensino médio e o ensino secundário.
O alto custo de vida é outra das principais reivindicações levadas às ruas. Emilie, dona de casa e mãe de cinco filhos, afirmou que a família tem precisado abrir mão de despesas básicas. Ela também relatou problemas enfrentados por estudantes em escolas diferentes, como a falta de professores e de materiais para aulas práticas.
Segundo a manifestante, algumas unidades não têm portas nos banheiros e registram problemas estruturais graves. Ela citou o desabamento de um teto sobre um aluno e classificou a situação como “inaceitável”. Emilie também denunciou a violência policial durante os protestos.
Confrontos foram registrados em várias cidades
O Ministério do Interior informou que, até as 18h, 296 pessoas haviam sido presas em todo o país por envolvimento em ocorrências relacionadas às manifestações. Desse total, 61 detenções ocorreram em Paris. Na capital, as forças de segurança realizaram 5.114 abordagens.
O ministério afirmou ter identificado a presença de “elementos radicais” em várias cidades, citando Bordeaux, Toulouse, Rennes, Lille, Nantes, Marselha e Lyon. Segundo a pasta, esses grupos costumam entrar nos centros urbanos ao final das marchas com a intenção de provocar danos e saques. As autoridades disseram que intervenções policiais sistemáticas impediram parte dessas ações, embora os confrontos tenham continuado.
Em Paris, integrantes da tropa de choque avançaram contra manifestantes depois do encerramento do ato, na região da Porte de Charenton. Policiais usaram gás lacrimogêneo contra dezenas de pessoas mascaradas e vestidas de preto. De acordo com as informações divulgadas, alguns indivíduos utilizaram martelos para retirar pedras do pavimento e lançá-las contra os agentes. Pelo menos um artefato incendiário também foi arremessado.
A Prefeitura de Paris informou que um grupo de várias centenas de manifestantes atacou os policiais com diferentes objetos, incluindo um coquetel Molotov.
Também foram registrados protestos e incidentes em Nice, Toulouse, Marselha e Rennes. Em Marselha, cerca de 10 mil pessoas participaram da marcha. Em Grenoble, foram contabilizados 7.300 manifestantes, entre eles aproximadamente 200 integrantes do chamado “black block”. Em Bordeaux, a polícia estimou o público em 11 mil pessoas. Já em Lyon, a Prefeitura informou a presença de 19 mil participantes.
Operação de segurança mobilizou 70 mil agentes
As autoridades francesas reforçaram o policiamento em todo o país. Cerca de 70 mil policiais e agentes de segurança foram mobilizados para prevenir distúrbios, saques e atos de vandalismo.
As forças de segurança também intensificaram as inspeções em estações ferroviárias, rodovias e pedágios. Segundo o Ministério do Interior, essas verificações permitiram identificar pessoas que carregavam armas improvisadas. A operação deveria continuar durante toda a noite, especialmente em Paris, onde as medidas foram aplicadas com maior rigor.
Até o meio-dia, a avaliação oficial era de que a situação permanecia “geralmente tranquila, sem incidentes dignos de nota”. O governo informou, no entanto, que o esquema de segurança seria mantido e adaptado ao cenário, especialmente no fim do dia, em razão da noite de Halloween.
O ministro do Interior, Laurent Núñez, reiterou que a polícia atuaria com “a máxima firmeza” contra os responsáveis por atos de violência e danos durante as manifestações.







