A três dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, o WhatsApp emergiu como um palco central de mobilização política, intensificando a disputa entre as campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Apesar de não serem canais oficiais, grupos administrados por apoiadores de ambos os candidatos vêm desempenhando papel relevante na estratégia de engajamento, mobilizando milhões de seguidores por meio de ações coordenadas para ampliar a circulação de mensagens favoráveis às suas candidaturas.
Os principais exemplos dessa movimentação são o “Exército do Lula”, gerenciado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), e a “Tropa do Flávio”, criado pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Esses canais, embora não tenham o status de plataformas oficiais de campanha, concentram uma parcela significativa da atuação digital, influenciando o debate e a circulação de informações nas redes de mensagens instantâneas.
Segundo Daniela Alarcon, assessora estratégica da Bites, uma empresa especializada em análise de dados digitais, o crescimento dessas redes representa uma mudança inédita no cenário político digital, especialmente considerando o histórico de domínio da direita nas plataformas de mensagens durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Ela destaca que, neste segundo turno, observa-se um fenômeno de organização digital sem precedentes, que surpreendeu até mesmo a campanha de Flávio Bolsonaro.
A análise de Alek Maracajá, especialista em inteligência digital e diretor da AtivaWeb DataLab, reforça que o número de seguidores não é o único indicador de influência. Segundo ele, a estrutura descentralizada de redes bolsonaristas, que operam desde 2018, faz com que canais menores possam exercer grande impacto na mobilização, mesmo com um número relativamente reduzido de seguidores.
Atualmente, o “Exército do Lula” ultrapassa a marca de 7,7 milhões de seguidores, enquanto a “Tropa do Flávio” conta com cerca de 2 milhões. Os canais oficiais dos candidatos, por sua vez, apresentam números inferiores: o de Lula possui pouco mais de 2 milhões de seguidores, e o de Flávio, aproximadamente 200 mil. O ritmo de crescimento do canal liderado por Janones é expressivo: em 10 de outubro, tinha cerca de 3 milhões de seguidores, e em 21 de outubro, já superava os 7 milhões, dobrando sua base em menos de duas semanas. Essa estratégia de ampliação de redes digitais é vista como uma tentativa de ampliar o alcance e a influência na reta final do pleito.
A atuação desses canais também resultou em disputas judiciais. Na semana passada, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, determinou a suspensão do “Exército do Lula” após solicitação da campanha de Flávio Bolsonaro, que alegou disseminação de desinformação. A decisão foi revista pelo corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, mas posteriormente revertida por Nunes Marques, que argumentou que o canal tinha vínculo com a campanha oficial e deveria estar devidamente registrado no TSE. Após o procedimento de registro, o canal foi reativado.
No contexto dessas controvérsias, uma minuta de resolução do TSE chegou a propor a desativação de canais políticos com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas que antecederem e nas 24 horas após o segundo turno, medida que foi barrada pelo ministro Nunes Marques nesta quarta-feira, dia 21. A proposta buscava proteger a integridade do processo eleitoral, mas sua implementação poderia afetar tanto o “Exército do Lula” quanto a “Tropa do Flávio”.
De acordo com Daniela Alarcon, embora a restrição pudesse diminuir a circulação de certos conteúdos, não impediria a migração de mobilizações para outras plataformas ou canais. Ela também alerta que uma mudança de regras às vésperas da votação poderia gerar maior controvérsia, especialmente devido às críticas da campanha de Lula às decisões do tribunal. Maracajá acrescenta que a redução de disparos em larga escala provavelmente ocorreria, mas que não há evidências suficientes para afirmar que a desinformação seria completamente controlada por essas medidas.
Diante do cenário de possíveis novas restrições, Janones passou a orientar seguidores do “Exército do Lula” a migrar suas atividades para seu perfil pessoal no Instagram, buscando manter a comunicação caso o canal seja novamente suspenso. Para Daniela Alarcon, essa estratégia de Janones exerce uma pressão adicional sobre a campanha de Flávio Bolsonaro. Apesar do histórico mais consolidado de mobilização digital da direita, ela avalia que o candidato do PL ainda não conseguiu construir uma frente online de volume e adesão semelhantes às do canal pró-Lula.
Por fim, especialistas ressaltam que o peso desses canais na eleição não está apenas na conversão direta de votos, mas na mobilização da base e na definição dos temas que dominam a reta final do pleito. O impacto real dependerá, sobretudo, da capacidade de alcançar eleitores fora das próprias bolhas políticas, influenciando o debate e a formação de opinião durante o período decisivo da eleição.







