Apesar de as articulações estaduais frequentemente ocuparem papel central nas campanhas eleitorais e de a formação de palanques ser considerada uma estratégia importante na disputa pelo Palácio do Planalto, análises de cientistas políticos indicam que a influência das candidaturas aos governos estaduais sobre o resultado das eleições presidenciais é relativamente menor do que costuma parecer. Essa avaliação é reforçada pelo comportamento do eleitor brasileiro nas últimas décadas, que demonstra uma clara distinção entre as escolhas para presidente e para os governos estaduais.
Historicamente, o eleitorado brasileiro tem mostrado que sua decisão para o cargo de chefe do Executivo federal não está necessariamente vinculada às preferências pelos candidatos estaduais. Um exemplo evidente é o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, que foi eleito várias vezes sem contar com a maioria dos governadores aliados ou com uma base majoritária no Congresso Nacional. Em 2022, Lula retornou ao Palácio do Planalto mesmo após adversários conquistarem vitórias em estados considerados estratégicos, como São Paulo, onde Tarcísio de Freitas, do Republicanos, foi eleito, e Minas Gerais, governada por Romeu Zema, do Novo.
Especialistas explicam que essa dinâmica ocorre porque as disputas nacionais e estaduais seguem lógicas distintas. Em cenários de polarização, fatores como a avaliação do governo federal, o desempenho da economia e a identificação ideológica pesam mais na decisão de voto para presidente. Por outro lado, a eleição para governador tende a ser influenciada por questões locais, como a avaliação das administrações estaduais e a preferência por candidatos que atendam a interesses regionais específicos.
Segundo Pedro Müller, consultor da Seta Public Affairs e formado em Ciência Política e História pela Universidade da Califórnia, San Diego, a influência da eleição de governadores sobre a presidencial é quase nula. Ele afirma que, na prática, o fenômeno observado nas últimas eleições demonstra justamente o oposto: uma forte influência da eleição presidencial sobre as estaduais. Müller explica que o eleitor brasileiro adota critérios diferentes na hora de votar para presidente e para governador. Para o cargo máximo, a preferência é moldada por fatores identitários e ideológicos, enquanto para os governadores prevalece o pragmatismo e o fisiologismo.
Ele cita o exemplo das eleições de 2022, em que Lula conseguiu recuperar parte do eleitorado na região metropolitana de São Paulo, mesmo com a vitória de Tarcísio de Freitas no estado. Minas Gerais também exemplifica esse comportamento, pois o estado já apresentou votações em candidatos de campos políticos opostos na eleição presidencial e na estadual, como Lula e Aécio Neves (2006), Dilma Rousseff e Antonio Anastasia (2010), além de Lula e Zema (2022).
Murilo Medeiros, cientista político da Universidade de Brasília (UnB), acrescenta que um palanque estadual pode contribuir para fortalecer uma candidatura presidencial, mas não é determinante para seu desempenho final. A transferência de votos entre os níveis de governo não é automática e depende de fatores como a popularidade do governador, seu alinhamento ideológico e o contexto nacional. Medeiros destaca ainda que a polarização tende a diminuir ainda mais a influência das lideranças estaduais, uma vez que o eleitor decide com base na conjuntura geral, na economia e na avaliação do governo federal, muitas vezes optando por candidatos de diferentes espectros políticos para presidente e governador.
Esse comportamento explica fenômenos históricos como o “Lulécio” em Minas Gerais, em 2006, e o “Luzema” em 2022, em que o eleitorado votou de forma divergente para presidente e governador. Medeiros acredita que uma combinação semelhante pode se repetir na eleição de 2026, com possibilidades de votos cruzados, como um “Lularcísio” em São Paulo, uma vez que a avaliação do desempenho estadual não necessariamente reflete a preferência presidencial.
Após o pleito, porém, a relação entre presidente e governadores passa a ter um peso diferente. Se durante a campanha a influência dos palanques estaduais sobre o resultado presidencial é limitada, no exercício do mandato essa relação se fortalece por meio da articulação política, alianças com deputados e senadores, além da implementação de políticas públicas. Como raramente um presidente consegue formar uma maioria no Congresso, é comum que negociações envolvendo cargos, ministérios e emendas parlamentares sejam necessárias para construir uma base de apoio, prática conhecida como presidencialismo de coalizão.
Nessa fase, os governadores ampliam sua influência ao atuarem em conjunto com suas bancadas e participarem de negociações que envolvem recursos federais, especialmente em áreas como saúde, educação e segurança. Muitos governadores evitam confrontar o presidente para manter o acesso a recursos e cumprir promessas de campanha, adotando uma postura pragmática na relação com o Executivo federal. Assim, a dinâmica entre os chefes do Executivo estadual e federal tende a se pautar pelo interesse pragmático, independentemente das motivações eleitorais que os levaram ao poder.







