O uso contínuo de cinco ou mais medicamentos, prática conhecida como polifarmácia, está entre as principais causas de tontura e confusão mental súbita em idosos. A combinação de remédios pode provocar efeitos colaterais importantes, especialmente porque o envelhecimento modifica a forma como o organismo absorve, distribui e elimina as substâncias.
Levantamentos do Ministério da Saúde e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que mais da metade dos idosos brasileiros convive com duas ou mais doenças crônicas. A presença simultânea de diferentes problemas de saúde costuma aumentar a quantidade de medicamentos usados diariamente, elevando também a possibilidade de interações entre as substâncias.
Além do número de remédios, as alterações naturais do envelhecimento contribuem para o aumento dos riscos. A redução da função dos rins faz com que determinadas substâncias sejam eliminadas mais lentamente. Ao mesmo tempo, o aumento da proporção de gordura corporal em relação à massa muscular pode prolongar a permanência de alguns fármacos na corrente sanguínea. O resultado é uma maior exposição a efeitos adversos e até a quadros de intoxicação.
Segundo a médica geriatra Antonieta Ozzetti, especialista em doenças neuropsiquiátricas e cuidados paliativos, sintomas que surgem de forma repentina nem sempre são provocados por uma nova doença. Em muitos casos, podem estar relacionados aos efeitos colaterais dos medicamentos. A maior vulnerabilidade dos idosos a alterações cognitivas também faz com que essas reações sejam confundidas com demência ou senilidade.
Entre os medicamentos que exigem atenção estão anti-hipertensivos, ansiolíticos, hipnóticos, antidepressivos tricíclicos, opioides e antiepilépticos. Quando usados em conjunto, eles podem causar queda acentuada da pressão arterial, alterações no ritmo do coração e sedação excessiva. Esses efeitos favorecem a perda de equilíbrio e aumentam a probabilidade de acidentes.
A automedicação pode agravar o problema mesmo quando envolve produtos que não exigem receita. O farmacêutico Samuel Wagner alerta que analgésicos, anti-inflamatórios e protetores gástricos também podem interferir no tratamento. O ibuprofeno, por exemplo, pode aumentar o risco de sangramentos gastrointestinais e de lesões renais, principalmente quando é associado a anticoagulantes e anti-hipertensivos. Já o omeprazol pode interagir com determinados medicamentos e alterar a eficácia deles.
Outro risco ocorre quando o paciente se esquece dos horários, repete uma dose ou toma uma quantidade maior do que a prescrita. Esses erros podem afetar o sistema nervoso central e provocar sonolência, perda de equilíbrio e, em situações graves, convulsões. Quando a tontura resulta em uma queda, as consequências podem incluir fraturas de quadril e traumas cranianos.
Revisão dos medicamentos ajuda a reduzir riscos
A conciliação e a revisão periódica dos remédios são medidas consideradas essenciais no acompanhamento da saúde do idoso. A avaliação médica pode identificar combinações inadequadas, doses que precisam ser ajustadas e medicamentos que já não são necessários.
Antonieta Ozzetti explica que as consultas geriátricas frequentemente levam à chamada desprescrição, processo de suspensão de medicamentos que deixaram de ser necessários ou que podem oferecer mais riscos do que benefícios. De acordo com a especialista, é comum que a avaliação resulte na retirada de remédios, e não apenas na inclusão de novas prescrições.
Se a tontura ou a desorientação começar após a introdução de um medicamento, a orientação é não interromper o tratamento nem modificar as doses por conta própria. A família deve observar quando os sintomas apareceram e informar ao profissional de saúde todos os remédios utilizados pelo idoso, inclusive aqueles comprados sem receita.
Também é necessário procurar atendimento de emergência quando a tontura vier acompanhada de confusão súbita, dificuldade para falar, fraqueza em um dos lados do corpo ou desmaio. Segundo Samuel Wagner, esses sinais podem indicar condições graves, como um acidente vascular cerebral (AVC). Nesses casos, a recomendação é buscar atendimento imediato ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192.








