A crescente adoção de medicamentos emagrecedores, especialmente as canetas à base de semaglutida e tirzepatida, tem impactado o setor de bares e restaurantes em Belo Horizonte. Conhecidos por sua culinária tradicionalmente marcada por porções generosas, os estabelecimentos na capital mineira vêm observando mudanças no comportamento dos clientes, que passaram a preferir porções menores, alimentos mais leves e bebidas sem álcool. Essa transformação reflete uma tendência nacional, impulsionada pelo aumento nas vendas desses medicamentos no Brasil, que, segundo dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) analisados pela Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), cresceu 23,2% no primeiro semestre de 2026 em comparação ao mesmo período do ano anterior.
O maior avanço ocorreu na comercialização de produtos à base de semaglutida, que registrou um aumento de 58,8% nas vendas em caixas, com 368.741 unidades comercializadas somente em junho. Esses números indicam uma forte tendência de crescimento, especialmente no segundo trimestre do ano. O impacto desse fenômeno é perceptível na rotina dos consumidores, como exemplifica a experiência da cabelereira Luciene Souza, que após seis meses de tratamento com tirzepatida, passou a sentir alterações no apetite e no paladar, optando por alimentos menos pesados ao sair para refeições fora de casa.
Essa mudança de comportamento não significa que os clientes deixaram de frequentar bares e restaurantes, mas sim que passaram a adotar um consumo mais consciente. Os consumidores tendem a dividir pratos, pedir porções menores e buscar alimentos ricos em proteínas, com menos fritura e ingredientes considerados mais leves. Essa adaptação é refletida também na oferta dos estabelecimentos, que vêm reformulando seus cardápios para atender a essa nova demanda. Em um bar na região da Floresta, na Zona Leste de Belo Horizonte, por exemplo, a redução no faturamento de cerca de 20% no início de 2026 foi atribuída à mudança no perfil de consumo, com clientes preferindo porções menores e opções mais leves.
Os empresários têm respondido a essas mudanças ajustando suas ofertas. Vinícius Duarte, sócio de um restaurante local, conta que, após perceber a dificuldade de clientes que usam canetas emagrecedoras consumirem porções tradicionais, passou a reformular seu cardápio, substituindo pratos mais pesados por versões mais leves e ricas em proteínas. Entre as novidades, destaque para sanduíches de carnes magras, como frango defumado, acompanhados de saladas e cremes de parmesão, além de petiscos que proporcionam maior sensação de leveza. Essas mudanças visam não apenas atender aos usuários das canetas, mas também consumidores que praticam atividades físicas ou seguem dietas restritivas, sem abrir mão de momentos de lazer.
Além da alimentação, a demanda por bebidas também foi afetada. O estabelecimento passou a oferecer opções de cervejas sem glúten, sem álcool e drinques zero álcool, que vêm registrando aumento nas vendas. Segundo Duarte, a procura por garrafas de cerveja sem glúten e long necks sem teor alcoólico cresceu consideravelmente, levando o restaurante a ampliar a oferta dessas opções. Essas adaptações têm ajudado o setor a recuperar parte do faturamento perdido e a ampliar seu público, incluindo aqueles que buscam manter uma rotina alimentar mais equilibrada ao socializar.
Especialistas apontam que essa tendência deve se consolidar nos próximos anos. O presidente executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, destaca que, enquanto o uso de canetas emagrecedoras esteve restrito às classes A e B, a possível ampliação do acesso às classes C e D, com a queda na patente e a chegada ao mercado de medicamentos genéricos, poderá impulsionar novas mudanças no setor de alimentação e bebidas. Atualmente, esses medicamentos representam entre 8% e 9% da receita do setor farmacêutico brasileiro, com previsão de alcançar 20% até 2030.
Para os empresários do ramo de alimentação, a adaptação às novas preferências de consumo não deve ser passageira. Vinícius Duarte reforça que o setor está preparado para responder às mudanças, demonstrando resiliência e capacidade de inovação. A tendência de compartilhar porções menores, buscar alimentos mais leves e opções de bebidas sem álcool deve permanecer, contribuindo para uma transformação duradoura no perfil de consumo na capital mineira.








