O uso de esteroides anabolizantes tem se tornado uma prática cada vez mais comum entre frequentadores de academias, impulsionado pelo desejo de ganho de massa muscular. No entanto, os efeitos dessas substâncias vão muito além do aumento de volume muscular, apresentando riscos significativos à saúde cardiovascular. Entre as complicações mais graves estão alterações hormonais, lesões no fígado e problemas cardíacos, que podem levar a consequências fatais.
No coração, o uso prolongado de anabolizantes pode causar um crescimento anormal do músculo cardíaco, condição conhecida como hipertrofia miocárdica. Essa alteração, diferente da hipertrofia decorrente do treinamento físico intenso, pode resultar em aumento descontrolado do tecido muscular, formação de áreas de fibrose — que funcionam como pequenas cicatrizes — e deterioração da funcionalidade cardíaca. Estudos recentes reforçam essa preocupação. Uma pesquisa publicada em 2025 no European Heart Journal acompanhou mais de 20 mil fisiculturistas, tanto profissionais quanto amadores, durante 16 anos. Os resultados indicaram uma taxa de morte súbita cardíaca cinco vezes maior entre atletas profissionais que utilizam esteroides, especialmente durante competições.
Além disso, dados de um estudo divulgado na revista Circulation, que acompanhou por 11 anos 1.189 homens usuários de anabolizantes em academias, comparando-os a quase 60 mil homens da população geral, revelam riscos elevados. Os usuários apresentaram quase nove vezes maior probabilidade de desenvolver cardiomiopatia, três vezes maior de sofrer infarto e mais do que o triplo de risco de insuficiência cardíaca. Esses números evidenciam a gravidade do impacto do uso dessas substâncias na saúde do coração.
Segundo o cardiologista Eduardo Lima, do Hospital Nove de Julho e coordenador de Cardiologia da Rede Américas, a hipertrofia miocárdica causada por anabolizantes difere da hipertrofia fisiológica observada em atletas. Enquanto a adaptação natural do coração ao exercício físico intenso aumenta o músculo para atender à maior demanda de sangue, ela mantém a funcionalidade do órgão. Já o crescimento induzido por esteroides pode ser exagerado, acompanhado de fibrose e perda de eficiência na bomba cardíaca, comprometendo a saúde.
O diagnóstico dessas alterações exige avaliação clínica detalhada, incluindo histórico do uso de substâncias, tipo de treinamento e exames de imagem como eletrocardiograma, ecocardiograma, ressonância magnética cardíaca e testes de esforço. Além de promoverem hipertrofia, os anabolizantes elevam a pressão arterial, pioram os níveis de colesterol, favorecem processos inflamatórios, aumentam a formação de trombos e aceleram o desenvolvimento de aterosclerose. Esses fatores contribuem para o risco de hipertrofia cardíaca, insuficiência, infarto e arritmias graves ao longo do tempo.
Embora algumas dessas alterações possam ser revertidas com a interrupção do uso, especialmente se detectadas precocemente, danos mais severos, como fibrose e alterações estruturais, tendem a causar recuperação parcial. O principal risco, segundo o cardiologista Eugênio Moraes, do Hospital Sírio-Libanês, é que o crescimento anormal do músculo cardíaco pode evoluir para doenças mais graves, como arritmias ventriculares, que aumentam o risco de morte súbita, e insuficiência cardíaca.
Moraes alerta ainda que algumas alterações podem ocorrer de forma silenciosa, sem sintomas evidentes, enquanto outras apresentam sinais claros, como palpitações, dor no peito, cansaço excessivo, sensação de desmaio ou episódios de desmaio. O uso de anabolizantes também aumenta a formação de placas nas artérias do coração, o que pode levar a infartos mesmo em jovens. Para identificar precocemente esses riscos, exames como eletrocardiograma, ecocardiograma e angiotomografia coronariana são essenciais, embora muitas pessoas utilizem as substâncias sem acompanhamento médico, dificultando a detecção de problemas antes que se tornem graves.








