Chega aos cinemas brasileiros a produção «Marsupilami: Confusão a Bordo», dirigida, roteirizada e encabeçada por Philippe Lacheau. O filme, que já se tornou um fenômeno de bilheteria na Europa, chegou à distribuição da Paris Filmes visando explorar o apelo nostálgico de um personagem conhecido desde as manhãs e tardes de TV com o Marsupilami amarelo, de manchas de leopardo e cauda exuberante. Na Europa, o filme vendeu mais de seis milhões de ingressos, configurando-se como um dos maiores êxitos financeiros recentes do cinema francês, ainda que tenha recebido críticas pesadas por parte de especialistas internacionais.
Ao analisar o título, o portal LeoDias aponta uma divisão clara: o filme funciona bem como entretenimento honesto e cativante para crianças, mas tropeça ao tentar se legitimar como longa voltado ao público adulto, apelando a piadas de duplo sentido e referências que destoam do tom pretendido para uma adaptação familiar.
A premissa não foge dos clichês da comédia de erros. Para manter o emprego num zoológico à beira da decadência, o personagem David (interpretado, dirigido e também roteirista por Lacheau) aceita transportar clandestinamente uma caixa enigmática da América do Sul. Com o objetivo de reconciliação, ele chama a ex-esposa (Élodie Fontan) e o filho para uma viagem num cruzeiro de luxo, buscando amenizar as tensões do passado. A confusão se instala quando um colega desastrado do protagonista liberta um filhote de Marsupilami no interior do navio, desencadeando uma sucessão de peripéias.
Como ponto alto da produção, destaca-se justamente a criatura. Ao contrário de muitas obras contemporâneas que dependem integralmente de computação gráfica, a direção optou por um boneco animatrônico real, que interage com os intérpretes ao longo da maior parte das cenas, com efeitos visuais reservados apenas para as acrobacias. Essa escolha confere à mascote uma textura perceptível de pelagem, além de uma expressividade que a torna surpreendentemente fofa e convincente em tela.
O visual cativante, aliado a um ritmo ágil de 99 minutos, contribui para que o bebê amarelo brilhe cada vez que aparece — seja ao se enrolar com a sua cauda de sete metros para fugir dos vilões, ou ao simular um golpe no estilo “Kamehameha” remanescente do universo de Dragon Ball Z. Nessas situações, o filme consegue entusiasmar o público, especialmente as crianças, que naturalmente se encantam com o visual e a comicidade física.
No entanto, a avaliação crítica aponta uma crise de identidade no roteiro. Embora o projeto seja comercializado como uma aventura familiar para as férias, o elenco de comediantes liderado por Lacheau — conhecido na França como Bande à Fifi — não resiste à tentação de inserir o seu repertório característico de humor adolescente, o que desequilibra o tom. O resultado é uma mistura que, por vezes, transita entre o encanto infantil e uma dose de escatologia, insinuações sexuais ocasionais e trocadilhos de humor lato sensu que parecem deslocados para espectadores em companhia de crianças.
Outro ponto de crítica é o uso de Marsupilami como um acessório de luxo para justificar uma sequência de esquetes, em detrimento de uma narrativa coesa. A diversidade de cenas faz com que a criatura tenha menos tempo de tela do que o título sugere, minando, de certo modo, a mensagem de preservação ecológica que sempre permeou as aventuras originais criadas por André Franquin nos quadrinhos.
Ao público brasileiro, a percepção tende a ser mais favorável do que na Europa, o que se explica pela tradição de dublagem local e pelo humor direto que encontrou ressonância na cultura televisiva do país. A equipe de dublagem adapta referências com precisão, preservando o tom nostálgico esperado pelos espectadores que cresceram com o personagem nas telas da televisão aberta. Em linhas gerais, «Marsupilami: Confusão a Bordo» é, de fato, um filme aceitável, simpático e com desempenho visual robusto para um título infantil.
Para o público familiar, a projeção funciona como uma opção descomplicada e colorida para um fim de semana de lazer. No entanto, vale atentar à expectativa: vá pela fofura do Marsupilami e pela leveza da proposta, perdoando o roteiro mais raso e as piadas de alcance adulto que surgem de forma pouco integrada à proposta de filme para todas as idades.
Nota final: 6,5/10.






