Um assalto a banco que mobilizou Londrina, no Paraná, em 10 de dezembro de 1987, inspirou Assalto à Brasileira, novo longa-metragem dirigido por José Eduardo Belmonte. Na ocasião, sete homens armados invadiram uma agência do Banestado, o Banco do Estado do Paraná, e mantiveram mais de 300 pessoas sob seu controle durante horas. O episódio, que poderia ter resultado em uma tragédia, assumiu características incomuns ao longo das negociações e agora é retratado no cinema com uma combinação de sátira, drama e humor.
A produção foi reconhecida no 58º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme recebeu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular, enquanto Murilo Benício foi escolhido como Melhor Ator e Christian Malheiros venceu como Melhor Ator Coadjuvante. A premiação reforça a repercussão da obra, que transforma um caso policial real em uma narrativa marcada pelo absurdo e por elementos associados à maneira brasileira de enfrentar situações extremas.
A história se passa no Brasil do fim dos anos 1980, período de hiperinflação e de forte desconfiança em relação às instituições. Nesse ambiente de instabilidade econômica e social, o assalto provocou uma reação pouco habitual: parte da população passou a demonstrar apoio aos criminosos. O longa utiliza essa resposta coletiva para abordar as dificuldades vividas naquele período, sem deixar de explorar o humor presente no desenvolvimento do caso.
Christian Malheiros interpreta assaltante que conquista a simpatia dos reféns
Christian Malheiros dá vida a Moreno, um dos integrantes do grupo responsável pelo assalto. O ator nasceu depois dos acontecimentos de 1987, mas afirmou ter encontrado uma ligação pessoal com a história ao identificar no roteiro problemas financeiros semelhantes aos enfrentados por seus pais e por outras famílias brasileiras durante a crise econômica.
Na visão de Malheiros, os assaltantes não aparecem como criminosos profissionais. Eles são apresentados como pessoas formadas em um país atravessado por dificuldades políticas, econômicas e sociais. O ator contou que sua mãe evitava deixar dinheiro em bancos e preferia manter os valores em espécie. Também relatou que ela costurava o bolso das roupas do pai depois que ele recebia o salário, numa tentativa de impedir furtos.
A interpretação de Moreno foi construída a partir do carisma atribuído ao personagem real. Durante a ocupação da agência, ele teria conquistado a confiança de diversos reféns por agir com educação. Depois do crime, chegou a sair com várias namoradas. Para Malheiros, Moreno exercia liderança sem recorrer a maus-tratos e conseguia influenciar as pessoas sem que elas percebessem de imediato o alcance de sua atuação.
O ator também apontou o desafio de representar personagens envolvidos em um crime sem transformar a narrativa em uma justificativa para a prática. Segundo ele, o filme não apresenta um julgamento definitivo sobre os protagonistas. Em vez disso, expõe os dilemas do grupo e permite que o público forme sua própria interpretação. Malheiros avaliou ainda que o assalto pode ser visto como uma tentativa desesperada de chamar atenção em uma realidade na qual muitas pessoas não conseguiam equilibrar as contas no fim do mês.
Murilo Benício vive jornalista que tenta transformar o caso em reportagem
Murilo Benício interpreta Paulo, um jornalista recém-demitido que vai à agência bancária para retirar o dinheiro referente à rescisão contratual. Ao se deparar com o assalto, ele decide colaborar com Moreno e Barba, vivido por Robson Nunes, durante as conversas com a polícia. A intenção é conseguir, em troca, uma reportagem exclusiva sobre o sequestro dos reféns.
Benício afirmou que se interessou pelo roteiro justamente por sua capacidade de afastar-se do padrão tradicional dos filmes comerciais. Depois de ouvir de Belmonte que o projeto deveria alcançar um público amplo, o ator buscou evitar uma construção convencional ou idealizada para o personagem.
Na caracterização, Paulo aparece com visual mais pesado, frequentemente suado, de camisa aberta e com a barriga à mostra. A referência usada pelo ator foram seus tios durante churrascos de domingo. Benício também fumou cigarros reais nas filmagens e solicitou à equipe de arte a reprodução de um maço da marca Free, associado à estética dos anos 1980.
O ator entrou nos ensaios depois dos colegas mais jovens, pois ainda concluía outro trabalho. A distância inicial acabou servindo à própria composição de Paulo, que também chega à agência sem conhecer os assaltantes. Durante as filmagens, porém, Benício desenvolveu uma relação de parceria com o restante do elenco.
Improviso alterou uma das principais cenas do filme
A confiança entre elenco e direção abriu espaço para improvisações em momentos importantes da produção. Uma das sequências centrais mostra Moreno entregando dinheiro aos reféns antes de permitir que eles deixem o local em um ônibus. Na cena, o personagem afirma que os valores poderiam ajudar no pagamento de despesas como cirurgias e formaturas.
Christian Malheiros explicou que a passagem foi realizada de maneira diferente da prevista inicialmente no roteiro. Belmonte entregou ao ator uma quantia em dinheiro cenográfico e pediu que ele decidisse como distribuir o valor. Os figurantes e os intérpretes dos reféns não sabiam previamente quem receberia o dinheiro, o que provocou reações espontâneas durante a gravação.
Com experiência também como diretor, Murilo Benício considera essa liberdade uma característica importante do cinema brasileiro. Na avaliação dele, enquanto produções norte-americanas sobre assaltos a bancos geralmente adotam um tom mais sério, Assalto à Brasileira aposta no humor, no improviso e na capacidade de encontrar alternativas diante das limitações.
A vivência de Benício atrás das câmeras também influenciou sua atuação. Ele afirmou que passou a compreender melhor a pressão enfrentada por um diretor durante uma filmagem. Em Londrina, a equipe enfrentou dias de chuva intensa, e o ator sugeriu que o mau tempo fosse incorporado às cenas. A troca entre Benício e Belmonte contribuiu, segundo o próprio ator, para a definição do tom final do longa.








