Um estudo realizado em dez países revela que comportamentos considerados por muitos jovens como demonstrações de afeto e intimidade, como compartilhar a localização, entregar senhas de celulares e responder rapidamente às mensagens, podem esconder formas de abuso digital que a maioria dos jovens entre 16 e 24 anos não identificam como tais. A pesquisa, conduzida pela psicóloga Nina Jane Patel e publicada nesta quarta-feira (30) no Journal of Online Trust and Safety, aponta que essa normalização do controle digital dificulta a distinção entre amor e manipulação, fenômeno que tem recebido o nome de violência entre parceiros íntimos facilitada pela tecnologia, ou TFIPV, na sigla em inglês. Essa prática envolve o uso de dispositivos tecnológicos como celulares, redes sociais, aplicativos de mensagens, rastreamento de localização e inteligência artificial para vigiar, coagir, assediar ou controlar o parceiro ou ex-parceiro.
A pesquisa, que entrevistou especialistas em atendimento a vítimas de violência digital em países como Brasil, Tchéquia, Inglaterra, França, Grécia, Indonésia, África do Sul, Espanha, Suécia e Estados Unidos, revelou que, apesar do desconforto com o controle digital, os jovens não o percebem como abuso. Em muitos casos, comportamentos como o compartilhamento de localização ou a entrega de senhas são considerados naturais ou até demonstrações de amor, o que reforça a dificuldade de reconhecer situações coercitivas.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a diretora executiva da ONG It’s On Us, Tracey Vitchers, explicou que estudantes chegam aos grupos de apoio com dúvidas, não com denúncias, frequentemente questionando se o interesse do parceiro em saber sua localização é algo comum. Como compartilhar localização com amigos é uma prática habitual, o pedido vindo de um parceiro pode parecer uma extensão dessa rotina, dificultando a percepção de invasão de privacidade. Segundo ela, muitos jovens cresceram com acesso à tecnologia e não entendem que ela também pode ser utilizada como ferramenta de abuso.
Na África do Sul, Sidwell Sehoana, representante da ONG ADAPT, relatou que uma jovem entregou sua senha ao namorado acreditando que essa atitude era comum e uma prova de amor. Para ela, esse controle é visto como uma rotina dentro do relacionamento, sendo considerado um problema apenas quando há violência física. Parte da origem desses comportamentos está na própria dinâmica familiar, onde pais e responsáveis frequentemente rastreiam a localização dos filhos, acessam mensagens e pedem senhas, sob o argumento de segurança. Essa prática, muitas vezes, transmite a ideia de que quem ama não tem nada a esconder, e esse padrão é transferido para os relacionamentos adultos.
Especialistas alertam que essa cultura de controle e vigilância, aprendida desde a infância, contribui para que os jovens tenham dificuldades em identificar comportamentos coercitivos. Como resultado, eles frequentemente não dispõem de uma linguagem adequada para reconhecer ou denunciar abusos, usando termos como “ciúme”, “proteção” ou “intensidade” para descrever situações que, na verdade, configuram violência. Maia Samuel, da ONG Women’s Aid na Inglaterra, destacou que muitos jovens sabem que algo está errado, mas não possuem a compreensão adequada para entender a gravidade do que vivem, enquanto Bia Diniz, fundadora da Cruzando Histórias no Brasil, reforça que essa falta de entendimento pode levar a uma normalização do abuso.
O estudo também aponta que, mesmo quando as vítimas reconhecem o problema e buscam ajuda, o suporte oferecido muitas vezes é insuficiente. Pais e professores costumam recomendar que os jovens se desconectem dos aparelhos, uma orientação que, segundo especialistas, é equivocada, pois o celular não é o agressor e a desconexão pode aumentar o isolamento da vítima. Além disso, há dificuldades legais específicas, como a legislação que, em alguns países, limita a proteção a vítimas de violência digital a maiores de 16 anos ou não dispõe de mecanismos eficazes para punir crimes relacionados a deepfakes, divulgação de imagens íntimas sem consentimento ou monitoramento não autorizado.
Outro agravante é o uso crescente de inteligência artificial na perpetuação de abusos, por meio de extorsões com deepfakes, chatbots que reforçam comportamentos controladores ou modelos de linguagem utilizados para criar mensagens de paquera falsas, o que compromete a autenticidade da comunicação. Segundo a pesquisa, o comportamento abusivo evolui, mas os padrões de controle permanecem semelhantes, reforçando a necessidade de estratégias de prevenção que foquem na identificação de comportamentos e não na plataforma utilizada.
Para auxiliar na identificação de sinais de violência digital, o estudo apresenta nove comportamentos de alerta, incluindo ignorar mensagens, chantagear, humilhar, manipular, demonstrar ciúme excessivo, exercer controle sobre quem o parceiro pode seguir ou postar, invadir a privacidade com senhas ou rastreamento, isolar o parceiro de amigos e familiares, e usar cobranças ou confirmações de leitura para punir atrasos na resposta. Os especialistas enfatizam que um comportamento isolado não caracteriza abuso, sendo fundamental considerar o padrão, o momento e o contexto em que ocorrem esses atos. Casais que, por consentimento mútuo, compartilham localização, por exemplo, não estão necessariamente em uma relação abusiva, mas a normalização do controle digital é uma questão que exige atenção contínua.








