Cães e gatos que permanecem sozinhos por longos períodos podem desenvolver a síndrome da ansiedade por separação (SAS), um distúrbio comportamental associado a sofrimento emocional intenso. A volta ao trabalho presencial e alterações repentinas na rotina familiar estão entre as situações capazes de provocar estresse e crises de pânico nos animais, tornando necessário adotar medidas graduais de adaptação e treinamento.
Segundo o médico-veterinário neurologista e professor do Uniceplac, Fernando Resende, a ansiedade por separação não deve ser confundida com simples saudade, desobediência ou mau comportamento. Trata-se de uma resposta de ansiedade que pode comprometer de forma significativa o bem-estar do animal, especialmente quando a exposição ao estresse se torna frequente ou prolongada.
Entre os sinais mais comuns em cães estão latidos persistentes, destruição de móveis e objetos próximos às portas, salivação excessiva e respiração ofegante. Nos gatos, o quadro pode aparecer por meio de vocalização exagerada e lambedura excessiva, comportamento que pode provocar lesões na pele.
A permanência prolongada em estado de estresse ativa o sistema nervoso e o eixo responsável pela produção de hormônios como o cortisol. De acordo com Resende, essa reação pode afetar o sono, o apetite e a digestão dos animais. A exposição contínua também favorece o surgimento de doenças dermatológicas, ampliando os impactos da síndrome sobre a saúde física e emocional dos pets.
Um levantamento realizado no Reino Unido com mais de 1,8 mil cães identificou que aproximadamente 10% desenvolveram novos comportamentos relacionados à separação durante mudanças bruscas na rotina. O problema foi observado principalmente entre os animais que deixaram de conviver integralmente com os tutores após a alteração do cotidiano familiar.
Adaptação deve ocorrer de forma gradual
Para reduzir o impacto da ausência, o adestrador Richardson Zago, especialista em comportamento canino e fundador honorário do Patinhas Urbanas, recomenda que o treinamento seja iniciado lentamente. A orientação é começar com pequenos períodos de afastamento e aumentar, aos poucos, o tempo, a intensidade e o grau de dificuldade das situações enfrentadas pelo animal.
Zago também aconselha evitar uma dependência excessiva dentro de casa. O pet não precisa acompanhar o tutor em todos os cômodos durante o dia. A construção gradual de momentos de independência pode ajudar o animal a lidar melhor com a separação, sem que a saída da família seja interpretada como uma situação excepcional ou ameaçadora.
Outro ponto importante é reduzir a associação entre determinados comportamentos do tutor e o momento da saída. Ações como pegar as chaves ou calçar os sapatos podem funcionar como gatilhos visuais para o animal. Variar a ordem dessas atividades ajuda a diminuir essa expectativa. Também é recomendado evitar despedidas dramáticas e recepções exageradas no retorno para casa.
De acordo com o adestrador, fazer muita festa ao voltar pode piorar o estado emocional do cachorro, pois o animal pode passar a relacionar aquele momento de grande excitação à ausência anterior do tutor. A orientação é tornar as saídas e os retornos acontecimentos naturais da rotina.
Enquanto a família estiver fora, brinquedos, petiscos escondidos pela casa e atividades de farejamento podem ajudar a ocupar a mente do animal. Esses recursos devem ser usados como parte da adaptação, especialmente para reduzir o tédio e oferecer estímulos durante o período de ausência.
Quando o quadro envolve pânico extremo, automutilação ou riscos físicos, a avaliação veterinária é indispensável. Nesses casos, medicamentos como fluoxetina e clomipramina podem ser prescritos pelo médico-veterinário para reduzir o sofrimento emocional. O uso dos remédios, no entanto, deve ocorrer associado à dessensibilização gradual, que busca adaptar o animal progressivamente aos períodos de separação.









