Negar um pedido dos filhos pode resultar em choro, raiva e birra, mas a frustração provocada pelo limite tem papel importante no desenvolvimento emocional infantil. Segundo Fiona Boylan, pesquisadora australiana especializada em primeira infância, aprender a lidar com respostas negativas ajuda as crianças a reconhecer e administrar sentimentos, enfrentar decepções e desenvolver resiliência.
A orientação ganha relevância em um contexto no qual muitas famílias deixaram de associar autoridade ao uso de castigos físicos e passaram a priorizar diálogo, afeto e compreensão. Embora esse modelo de criação favoreça a saúde mental, ele também pode fazer com que os responsáveis hesitem em impor regras por receio da reação dos filhos.
Em artigo publicado no The Conversation, Boylan afirma que emoções como tristeza, raiva e frustração não devem ser eliminadas sempre que surgem. Essas experiências permitem que a criança entenda, de maneira gradual, que nem todos os desejos serão atendidos e que situações difíceis podem ser superadas.
“Ouvir um ‘não’ é uma parte importante de como as crianças aprendem a regular as emoções, lidar com a frustração e desenvolver resiliência”, escreveu a pesquisadora. A relação entre limites e desenvolvimento emocional também foi abordada em um estudo publicado, em 2022, no International Journal of Environmental Research and Public Health.
A frustração faz parte da aprendizagem emocional
A regulação das emoções começa a ser construída nos primeiros anos de vida. Essa aprendizagem influencia a forma como a criança enfrenta desafios, convive com outras pessoas e se adapta ao ambiente escolar. Para Boylan, regular sentimentos não significa impedir que emoções desagradáveis apareçam, mas aprender a reconhecê-las, vivenciá-las e lidar com elas de forma progressiva.
Esperar, sentir entusiasmo, enfrentar uma proibição ou se decepcionar são experiências que participam desse processo. Por isso, a função dos pais não deve ser retirar todos os “nãos” da rotina, mas ajudar os filhos a reagir a eles com orientação e segurança.
Um artigo publicado na revista Cureus aponta que determinadas práticas parentais contribuem para que as crianças administrem melhor a atenção, o comportamento e as emoções. Para isso, os limites precisam ser objetivos e compreensíveis. Frases como “não, você não pode comer o pacote inteiro de bolacha” ou “não, você não pode subir no teto do carro” comunicam a proibição de forma direta.
A criança ainda pode ficar contrariada, mas terá contato com a frustração em um ambiente de cuidado. Boylan também alerta para a parentalidade permissiva, caracterizada por afeto e receptividade, mas poucas regras e restrições. Apesar da intenção positiva, estudos citados pela pesquisadora indicam que esse estilo pode estar associado a níveis mais elevados de problemas comportamentais e ansiedade em crianças.
Estratégias para impor limites com respeito
1. Dê respostas firmes e claras: a decisão deve ser comunicada sem transformar o limite em uma negociação interminável. Em vez de dizer “talvez mais tarde”, os responsáveis podem explicar: “não, não vamos comprar chocolate hoje”. A firmeza pode vir acompanhada do reconhecimento da emoção: “Eu sei que você está triste ou decepcionado porque queria muito o chocolate, mas a resposta continua sendo não”.
A coerência entre os adultos também é essencial. Quando um responsável proíbe algo e outro permite, ou quando a negativa é retirada depois de muita insistência, a criança pode entender que pressionar por mais tempo é uma forma de conseguir o que deseja.
2. Amplie o vocabulário emocional: filmes, desenhos e séries podem ser utilizados para conversar sobre sentimentos. Durante uma cena, os pais podem perguntar o que um personagem está sentindo e por que ele está chorando. A prática ajuda a criança a identificar e nomear as próprias emoções.
3. Mostre como lidar com a irritação: os adultos são referências para os filhos. Ao perceber que está irritado, o responsável pode demonstrar que respira fundo e tenta se acalmar antes de agir. Pesquisas indicam que as crianças aprendem a regular sentimentos tanto pelas instruções recebidas quanto pela observação do comportamento dos adultos.
4. Use a co-regulação: diante de uma emoção intensa, o adulto pode oferecer presença, atenção e afeto sem abandonar o limite. Em uma birra, por exemplo, pode dizer: “Eu vejo que você está muito chateado porque precisamos sair do parquinho”. Depois, deve permanecer próximo, oferecer consolo e reafirmar: “Eu sei que você queria ficar mais, mas está na hora de ir para casa”.
5. Reproduza situações em brincadeiras: bonecas, brinquedos e ursinhos podem representar momentos em que alguém ouve “não”. Em uma simulação de passeio ao parque, um personagem pode avisar que chegou o momento de voltar para casa. Esse ensaio torna o conceito mais compreensível quando uma situação semelhante acontece na vida real.
6. Valorize atitudes positivas: quando a criança realiza sem conflito uma tarefa que antes provocava resistência, os pais devem reconhecer a mudança. Entrar no banho no horário combinado, sem reclamações ou birra, é um exemplo de comportamento que pode ser destacado para estimular sua repetição.
7. Mantenha expectativas realistas: não é esperado que uma criança aceite todas as negativas sem protestar. Os sistemas cerebrais responsáveis pelo controle dos impulsos e pela regulação emocional ainda estão em desenvolvimento. Com limites razoáveis e reconhecimento dos sentimentos, os pais ensinam que é possível ficar decepcionado, recuperar-se e seguir em frente.








