Uma análise de moedas de prata encontradas por arqueólogos da Universidade de Bournemouth indica que Verica, governante dos Atrebates durante a Idade do Ferro, era uma mulher. A conclusão, apresentada em um estudo publicado nesta quinta-feira (5) na revista científica Current Archeology, modifica a interpretação tradicional sobre uma das principais figuras políticas do início da história da Grã-Bretanha.
Além de reavaliar a identidade de Verica, a pesquisa destaca a importância que ela teria desempenhado na expansão romana sobre a ilha. Os pesquisadores sustentam que a governante esteve diretamente envolvida nos acontecimentos que antecederam a invasão romana da Grã-Bretanha, ao buscar apoio do imperador Cláudio depois de perder o poder.
O território controlado pelos Atrebates correspondia, em grande parte, às áreas que hoje formam Hampshire e West Sussex. Verica permaneceu à frente desse domínio até ser deposta por volta de 40 d.C. Após deixar o governo, ela abandonou a Grã-Bretanha e fugiu para Roma, onde procurou auxílio político e militar.
Cerca de três anos depois, Verica teria se tornado uma peça relevante para a campanha romana contra a ilha. Naquele momento, o Império Romano era liderado pelo imperador Cláudio. O historiador romano Cassius Dio descreveu o governante como fraco de mente e ineficaz, avaliação usada no estudo para contextualizar a influência exercida por mulheres e escravos libertos sobre decisões importantes do governo imperial.
Segundo a interpretação dos pesquisadores, Verica convenceu Cláudio a cruzar o Canal da Mancha e iniciar uma operação militar contra o território britânico. O conhecimento que ela tinha da região, somado às informações fornecidas aos romanos, teria contribuído para o planejamento da expedição. A invasão acabou se tornando o principal triunfo de Cláudio como comandante militar.
Nome e inscrições ajudam a reavaliar identidade de Verica
As moedas não são a única evidência utilizada para defender que Verica era do sexo feminino. Miles Russell, pesquisador da Universidade de Bournemouth, também chama atenção para a forma do nome. Verica termina com a letra “a”, característica frequente em nomes femininos daquele período.
Apesar desse indício, a governante foi considerada homem durante décadas. De acordo com Russell, a interpretação teria sido influenciada pela visão patriarcal de historiadores clássicos do século 19. Esses estudiosos teriam partido do pressuposto de que uma autoridade política necessariamente seria masculina.
A palavra “rex”, gravada nas moedas de prata ligadas a Verica, também contribuiu para a confusão. Embora o termo seja normalmente traduzido como “rei”, ele não era utilizado exclusivamente para designar homens no poder. Líderes femininas, entre elas Cleópatra, também foram associadas à expressão.
Para os pesquisadores, a inscrição sugere que Verica exercia a autoridade de maneira legítima e com autorização plena de Cláudio. As moedas apresentam ainda a imagem de uma figura esbelta, com aparência feminina, peito nu e montada a cavalo, conforme a descrição feita por Russell.
Arqueologia contrasta com relato de Cassius Dio
A representação encontrada nas moedas diverge da imagem transmitida por Cassius Dio. O historiador romano descreveu a influência de Verica a partir de uma visão relacionada à figura de uma mulher fatal e traiçoeira. Já os vestígios arqueológicos analisados pelos pesquisadores apontam para uma atuação política e estratégica.
Nessa interpretação, Verica não teria sido apenas uma personagem envolvida nas disputas pelo poder entre os povos britânicos. Ao fornecer informações sobre o território e buscar o suporte necessário para a operação, ela teria contribuído diretamente para a invasão romana da Grã-Bretanha.
“Devemos levar as evidências arqueológicas pelo valor de face e lembrar de Verica como uma rainha e uma das primeiras e mais importantes líderes femininas britânicas”, afirmou Russell. Para o pesquisador, se Verica não tivesse sido deposta e não tivesse recorrido a Cláudio em busca de apoio militar, Roma talvez jamais tivesse invadido a Grã-Bretanha.
A nova leitura das moedas, portanto, recoloca Verica no centro das disputas políticas da Idade do Ferro. Também amplia a compreensão sobre a participação de uma governante britânica nos acontecimentos que favoreceram a expansão romana sobre a ilha.









