Uma pesquisa da Fiocruz identificou uma associação entre a exposição de gestantes a períodos de seca e o aumento da ocorrência de partos prematuros e de nascimentos de bebês menores do que o esperado para a idade gestacional. O levantamento analisou quase 30 milhões de nascimentos registrados no Brasil entre 2001 e 2020 e foi publicado na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.
Os dados mostram que aproximadamente 8% dos nascimentos incluídos na análise ocorreram antes do período considerado adequado. Em 9,3% dos casos, os bebês nasceram pequenos para a idade gestacional. Segundo os pesquisadores, os episódios de seca estiveram associados aos dois resultados, mas a intensidade da relação variou de acordo com a gravidade, a duração e a fase da gravidez em que as gestantes foram expostas ao fenômeno.
Conforme comunicado divulgado pela Fiocruz, os períodos de seca representaram um aumento estimado de 1,4 a 1,7 caso de prematuridade a cada mil nascimentos. Para os nascimentos de bebês pequenos para a idade gestacional, a elevação estimada ficou entre 0,8 e 1,5 caso por mil nascimentos. A variação dependeu do intervalo da gestação considerado na avaliação da exposição.
Secas mais intensas foram associadas a maior risco de parto prematuro
A relação entre a severidade da seca e a prematuridade foi um dos principais achados do estudo. Mesmo os episódios classificados como moderados apareceram associados a uma probabilidade maior de nascimento antes do tempo adequado. Com o agravamento da falta de água, o risco aumentou de forma progressiva, alcançando os níveis mais altos nos períodos classificados como severos ou extremos.
A pesquisa também examinou possíveis efeitos da escassez de água sobre o crescimento fetal. Nesse aspecto, a associação foi observada principalmente quando a seca se prolongou por períodos maiores. De acordo com os resultados, a permanência da falta de água ao longo de uma parte mais extensa da gestação esteve relacionada a impactos mais significativos no desenvolvimento do bebê.
Os autores ressaltam que os efeitos não foram idênticos em todas as situações. Além da intensidade e da duração da seca, o momento da exposição durante a gravidez também foi considerado na análise. Dessa forma, o estudo avaliou como diferentes características do fenômeno poderiam estar relacionadas aos desfechos observados entre os recém-nascidos.
Estudo cruzou registros de nascimentos e informações socioeconômicas
Para conduzir a investigação, os pesquisadores recorreram à Coorte de Nascimentos do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde, o Cidacs/Fiocruz Bahia. A base reúne informações do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Cadastro Único do Governo Federal.
O cruzamento permitiu analisar, em conjunto, dados sobre as condições socioeconômicas das famílias, as características das mães e as informações relacionadas aos partos e aos recém-nascidos. A estratégia possibilitou avaliar a associação entre a exposição à seca e os resultados da gestação considerando diferentes aspectos sociais e de saúde.
Na avaliação da disponibilidade de água, os pesquisadores não consideraram apenas o volume de chuvas. Também foi incluída a evapotranspiração, processo pelo qual a água do solo, dos rios, das plantas e da vegetação retorna à atmosfera em forma de vapor. A inclusão desse indicador ampliou a análise sobre a presença ou a ausência de água nos períodos estudados.
Resultados deram origem a recomendações para a gestão pública
As conclusões da pesquisa contribuíram para a elaboração do documento Seca e saúde materno-infantil no Brasil: caderno de recomendações para a gestão pública. O material foi desenvolvido com a participação de representantes do governo, da sociedade civil e de profissionais que trabalham em regiões atingidas pela seca.
O caderno apresenta 17 recomendações voltadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), à assistência social e ao planejamento público. O objetivo é apoiar medidas de enfrentamento aos efeitos da seca sobre a saúde materno-infantil com base nas evidências reunidas pelo estudo.
Aline Rocha, que liderou a pesquisa, afirmou que a elaboração do documento ajudou a ampliar a interpretação dos resultados. Segundo a pesquisadora, o diálogo com diferentes setores permitiu analisar os dados levando em conta não apenas os números, mas também as pessoas, os contextos locais e as dificuldades enfrentadas pelas populações que vivem em áreas afetadas pela seca.







