A COP31, conferência da Organização das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, será realizada em Antália, na Turquia, entre a próxima segunda-feira (9) e 20 de novembro. Depois da edição promovida no Brasil, o encontro deverá concentrar as negociações na transformação de compromissos internacionais em medidas práticas, no controle do aquecimento global, na ampliação do financiamento climático e no fortalecimento da cooperação entre os países.
O Brasil estará entre os protagonistas das discussões. A delegação brasileira pretende apresentar os chamados mapas do caminho, ou roadmaps, preparados pela presidência durante a COP30. Um dos documentos propõe diretrizes para a transição para longe dos combustíveis fósseis. O segundo reúne estratégias voltadas à redução do desmatamento.
Na avaliação de Celina Rodrigues, pesquisadora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) apoiada pelo Instituto Serrapilheira, o país tem condições de contribuir de maneira relevante para os debates por reunir uma ampla diversidade de ecossistemas e uma estrutura científica desenvolvida nacionalmente.
Segundo a pesquisadora, a participação brasileira não deve se limitar à produção de conhecimento. O país também precisa atuar diretamente nas negociações e nas decisões que definirão as respostas internacionais para os desafios climáticos futuros. Nesse processo, ela defende maior reconhecimento da ciência produzida no Sul Global.
Pressão aumenta com a aproximação do limite de 1,5ºC
A COP31 ocorrerá em um contexto de agravamento da crise climática. Embora tenham sido registrados avanços nos últimos anos, o planeta se aproxima da ultrapassagem do limite de 1,5ºC de aquecimento global, estabelecido como referência pelo Acordo de Paris, firmado em 2015. Estudos e relatórios recentes também apontam a possibilidade de que a elevação da temperatura média seja ainda maior.
O avanço do aquecimento amplia a probabilidade de secas, inundações, aumento do nível do mar e incêndios florestais de grandes proporções. Por isso, a conferência deverá ser tratada como uma oportunidade para reduzir o período em que a temperatura global permanecerá acima do limite e para converter metas políticas em ações concretas de redução das emissões.
A diminuição da liberação de gases de efeito estufa estará entre os principais temas. O metano deverá receber atenção especial, inclusive em discussões sobre a redução do desperdício de alimentos e do volume de resíduos orgânicos enviados a aterros sanitários. A decomposição desses materiais nesses locais libera metano na atmosfera.
Os governos também serão chamados a prestar contas sobre os compromissos assumidos em conferências e acordos anteriores. A avaliação deverá considerar tanto o cumprimento das promessas quanto a capacidade de ampliar metas e medidas de enfrentamento à mudança do clima.
Conservação da natureza ganha espaço nas negociações
A biodiversidade e a conservação dos ecossistemas são apontadas por especialistas como elementos que precisam ser incorporados de forma mais efetiva às políticas climáticas. Gabriel Lui, do Instituto Relva, afirma que essa integração é particularmente importante para o Brasil e não pode ser separada das estratégias de mitigação e adaptação.
A diversidade de espécies e ambientes naturais contribui para o funcionamento dos ciclos químicos e hidrológicos. Essa característica pode aumentar a eficiência da remoção de gases de efeito estufa em ações como a restauração florestal e a adoção de práticas de agricultura de baixo carbono.
A biodiversidade também pode oferecer alternativas para adaptar sistemas produtivos às novas condições climáticas. Espécies e variedades diferentes podem apresentar maior resistência a determinados cenários, contribuindo para a busca de respostas aos impactos do aquecimento global.
Uma das expectativas para a COP31 é alcançar avanços operacionais e mensuráveis na aplicação conjunta das três Convenções do Rio: a Convenção do Clima, a Convenção sobre Biodiversidade e a Convenção sobre Desertificação. A articulação entre os acordos pode ajudar a alinhar os planos nacionais e estimular as chamadas Soluções Baseadas na Natureza, como a recuperação de florestas e de outros ecossistemas.
Adaptação, oceanos e energia integram a agenda prioritária
O aumento contínuo das temperaturas também deverá impulsionar as discussões sobre o Objetivo Global de Adaptação. A estrutura internacional foi criada para ampliar a capacidade dos países de medir sua resiliência diante dos efeitos das mudanças climáticas.
A expectativa é que os governos sejam pressionados a aperfeiçoar seus planos nacionais de adaptação, com investimentos para proteger comunidades vulneráveis e financiar projetos específicos. Novos dados científicos poderão orientar as decisões e auxiliar na identificação dos riscos considerados mais urgentes.
Celina Rodrigues defende ainda uma presença mais forte dos oceanos na agenda climática. Esses ambientes desempenham papel central na regulação do clima e no ciclo global do carbono, além de fornecerem informações importantes para que os pesquisadores compreendam melhor os riscos futuros.
A pesquisadora também espera que a conferência amplie a cooperação científica internacional por meio de parcerias, intercâmbio de experiências e compartilhamento de dados. Os impactos climáticos ultrapassam fronteiras, o que torna a colaboração entre países um elemento relevante para a formulação de respostas.
O acesso a sistemas de refrigeração sustentáveis será outro ponto de atenção. Esses equipamentos ajudam a proteger vidas e a saúde pública durante períodos de calor intenso. Também podem contribuir para a segurança alimentar, ao reduzir os efeitos das altas temperaturas sobre as plantações, e para a produtividade.
O desafio é reduzir o impacto ambiental desses sistemas. De acordo com a matéria, 70% das emissões globais de gases de efeito estufa são atribuídas a eles. Nesse cenário, a eletrificação deverá ocupar posição central na Agenda de Ação, junto com a expansão das energias renováveis, a modernização das redes elétricas, o aumento da eficiência energética e a redução da dependência de combustíveis fósseis.
Recursos para o clima devem concentrar impasses
O financiamento climático deverá ser um dos pontos mais difíceis das negociações. Durante a COP30, o governo brasileiro lançou o TFFF, sigla em inglês para Tropical Forest Forever Facility, ou Fundo Florestas Tropicais. Na COP31, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá buscar novos recursos para a iniciativa, que já conta com compromissos financeiros de bilhões de dólares.
José Marengo, coordenador de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e membro da Academia Brasileira de Ciências, afirma que o interesse do Brasil está ligado à preservação das áreas verdes do território, especialmente à proteção da Amazônia.
A ausência do presidente dos Estados Unidos, no entanto, poderá dificultar a cooperação internacional. Para Marengo, ainda há expectativas positivas para a conferência, mas o peso das questões políticas pode limitar os avanços. Ele considera a adaptação um dos assuntos relevantes do encontro e mantém um otimismo moderado.
Entre os principais desafios está a definição de uma meta coletiva para que os países desenvolvidos mobilizem pelo menos US$ 300 bilhões por ano em financiamento climático até 2035. A prioridade deverá ser o apoio às nações afetadas por perdas e danos causados por desastres relacionados ao clima.








