Uma pesquisa realizada com 2.418 médicos candidatos ao programa de residência da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) indica que a grande maioria dos profissionais da saúde não está devidamente preparada para transmitir más notícias a pacientes e familiares. O estudo, publicado na revista científica Bioética, revela que 90% dos médicos não possuem habilidades adequadas para essa tarefa, e 40% deles nunca receberam qualquer tipo de treinamento específico durante a formação acadêmica.
A pesquisa, que adotou um método transversal do tipo survey, foi conduzida com dados coletados de um questionário aplicado a quase quatro mil candidatos durante a prova de ingresso ao programa de residência da Unifesp, realizada em novembro de 2016. Dentre os participantes, 1.213 não responderam à pergunta relacionada, enquanto 219 forneceram respostas incompletas ou inválidas.
Os pesquisadores utilizaram perfis sociodemográficos, experiências anteriores e percepções éticas como instrumentos de avaliação. A comunicação das más notícias foi analisada com base no protocolo SPIKES, que consiste em seis etapas: preparação, percepção, convite, conhecimento, emoções e estratégia. Apesar de 65% dos médicos afirmarem conhecer o protocolo, a etapa que aborda as emoções foi identificada como a mais desafiadora. Isso reflete a insegurança dos profissionais em lidar com as reações emocionais de pacientes e familiares, temendo que a demonstração de empatia possa ser interpretada como fraqueza.
Daniel Alveno, um dos autores do estudo e especialista em cuidados paliativos, ressalta a importância de uma abordagem sensível mesmo ao comunicar más notícias. Segundo ele, embora uma má notícia nunca se transforme em boa, existem maneiras de acolher o paciente e ajudá-lo a enfrentar a situação de forma compassiva.
O estudo também revela diferenças significativas entre as especialidades clínicas e cirúrgicas. Os médicos da área cirúrgica mostraram-se mais pragmáticos e menos preparados para lidar com aspectos emocionais, enquanto os clínicos demonstraram maior disposição para integrar equipes multidisciplinares no processo de comunicação.
Outro ponto crucial destacado pela pesquisa é que a falha na comunicação entre médicos e pacientes pode levar à distanásia, que é o prolongamento artificial da vida e do sofrimento desnecessário. No contexto do Sistema Único de Saúde (SUS), isso pode resultar em ocupação inadequada de leitos, como no caso de pacientes crônicos que permanecem em UTIs sem necessidade. Alveno enfatiza que essa comunicação deficiente gera custos elevados e um desgaste emocional significativo tanto para as famílias quanto para as equipes médicas.
Diante desses resultados, o estudo sublinha a necessidade de implementar estratégias didáticas que capacitem os profissionais de saúde a lidar com a comunicação de más notícias. A pesquisa também aponta para a importância de uma abordagem multidisciplinar, que pode contribuir para melhorar a qualidade da comunicação no ambiente hospitalar e, consequentemente, o atendimento aos pacientes.








