A cuidadora de idosos Cláudia Souza Dias, de 58 anos, perdeu a vida em um trágico acidente na manhã de quinta-feira (16) em Belo Horizonte. Cláudia, que residia no bairro Tupi e era conhecida por sua alegria e dedicação ao trabalho, estava a caminho de um lar de idosos na Pampulha quando, na garupa de uma motocicleta por aplicativo, sofreu um acidente fatal. O condutor da moto ultrapassou pelo canteiro central da avenida Doutor Cristiano Guimarães, o que fez com que Cláudia se desequilibrasse, caindo na pista e sendo atropelada por um ônibus que transitava ao lado. O motociclista, que perdeu o controle da direção, não se feriu.
Na manhã seguinte, familiares e amigos se reuniram em um cemitério na região Norte da capital para prestar suas últimas homenagens à cuidadora. Emocionada, a irmã de Cláudia, Vilane Souza Dias, expressou sua preocupação em relação ao uso de motocicletas por aplicativo, ressaltando que já havia alertado a irmã sobre os riscos envolvidos. “A gente falava para ela não usar. Ela respondia que, se tivesse que acontecer alguma coisa, aconteceria. Mas eu acho que esses motociclistas esquecem que estão levando uma vida ali atrás. Não é uma caixa de entrega. É uma pessoa”, lamentou.
De acordo com o boletim de ocorrência, o motociclista foi levado ao 13º Batalhão da Polícia Militar para prestar esclarecimentos, mas a Polícia Civil informou que ninguém foi conduzido à delegacia, e o caso será investigado pela Divisão Especializada em Investigação de Crimes de Trânsito. A morte de Cláudia não é um caso isolado; em 2026, uma série de acidentes envolvendo motocicletas por aplicativo em Belo Horizonte e na Região Metropolitana resultou em diversas vítimas, muitas delas ocupantes da garupa.
Em um incidente recente, uma passageira morreu após a colisão da motocicleta com um ônibus na capital. Outros passageiros sobreviveram, mas sofreram ferimentos que exigiram atendimento médico, evidenciando a vulnerabilidade dos ocupantes das garupas. O professor Agmar Bento Teodoro, especialista em segurança no trânsito do CEFET-MG, aponta que o aumento do uso de motocicletas como meio de transporte e trabalho está diretamente relacionado ao aumento da probabilidade de acidentes. “O aumento do número de viagens naturalmente eleva a possibilidade de ocorrência de acidentes. É uma relação esperada na engenharia de tráfego”, explica.
Teodoro também destaca que a dinâmica dos aplicativos, que frequentemente sugerem rotas alternativas para encurtar o tempo de viagem, pode levar os motociclistas a percorrerem ruas desconhecidas, aumentando o risco de acidentes. Além disso, ele chama atenção para o comportamento dos passageiros, que muitas vezes não têm experiência em andar de moto e não recebem orientações adequadas sobre como se comportar durante a viagem. “O passageiro precisa acompanhar os movimentos do motociclista. Quando a moto faz uma curva para um lado e a pessoa desloca o corpo para o lado oposto, cria-se um contrapeso que pode favorecer derrapagens e aumentar o risco de queda”, afirma.
O especialista recomenda que os passageiros utilizem equipamentos de segurança adequados, como capacetes bem afivelados e roupas que cubram as pernas, além de calçados fechados, para minimizar as lesões em caso de queda. Ele também sugere que os usuários não hesitem em pedir ao motociclista que reduza a velocidade se se sentirem inseguros durante o trajeto.
Em março de 2026, a regulamentação do transporte de passageiros por motocicletas por aplicativo em Belo Horizonte estabeleceu exigências para aumentar a segurança, como a idade mínima de 21 anos para os condutores, a obrigatoriedade da carteira de habilitação na categoria A por pelo menos dois anos, e a realização de cursos especializados de pilotagem. As plataformas de transporte também devem monitorar as viagens em tempo real e fornecer treinamento aos motociclistas.
O aumento da popularidade das motocicletas por aplicativo está intimamente ligado às deficiências do transporte público na região. Um relatório do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) revela que mais de 40% dos municípios mineiros ainda não elaboraram um Plano de Mobilidade Urbana, e 72% não dispõem de transporte público coletivo. Essa falta de planejamento compromete a organização das políticas públicas relacionadas à mobilidade e segurança viária, dificultando o acesso a recursos federais destinados ao setor.
Na análise de Agmar Bento Teodoro, a ineficiência do transporte coletivo leva muitas pessoas a optarem por alternativas mais rápidas e econômicas, como as motocicletas por aplicativo. “Quando o transporte público é pouco confiável, desconfortável ou demorado, as pessoas acabam optando pela moto por aplicativo, que muitas vezes oferece um trajeto mais rápido e até mais barato”, conclui o especialista, reforçando a necessidade de melhorias no sistema de transporte coletivo para diminuir os riscos enfrentados pela população nas vias urbanas.









