Uma costela de Tyrannosaurus rex, datada de aproximadamente 66 milhões de anos, está contribuindo para avanços na compreensão dos últimos momentos de vida do maior predador terrestre já descoberto. A estrutura preservada revelou uma extensa rede de vasos sanguíneos mineralizados, que se formou enquanto o animal tentava cicatrizar uma fratura, oferecendo uma visão inédita sobre os processos biológicos de um dinossauro pré-histórico.
O exemplar conhecido como Scotty, considerado um dos maiores T. rex já encontrados, possui cerca de 4 metros de altura na região dos quadris, aproximadamente 13 metros de comprimento e peso estimado em até 8,8 toneladas. Seus restos fósseis foram descobertos por pesquisadores do Royal Saskatchewan Museum, no Vale do Rio Frenchman, localizado na província de Saskatchewan, no Canadá. Além de seu tamanho impressionante, uma característica singular chamou a atenção dos paleontólogos: a preservação de tecidos moles, especificamente de vasos sanguíneos, em uma de suas costelas, o que é extremamente raro no registro fóssil.
A descoberta ocorreu no contexto de uma fratura na costela de Scotty, que provavelmente ocorreu durante uma disputa com outros dinossauros. Quando a ferida foi infligida, sangue rico em ferro foi direcionado ao local, formando uma rede de vasos sanguíneos que tentou promover a cicatrização. No entanto, o dinossauro morreu antes que o processo de recuperação fosse concluído, deixando uma evidência fóssil que captura uma fase de recuperação interrompida há milhões de anos. Após sua morte, o corpo de Scotty permaneceu em um ambiente pantanoso e salgado, condições que retardaram sua decomposição e contribuíram para a preservação das delicadas estruturas presentes no osso.
Investigações em nível celular e técnicas avançadas de imagem
As primeiras indicações da presença de vasos sanguíneos na costela de Scotty surgiram em 2020, quando o pesquisador Jerit Mitchell, da Universidade de Regina, no Canadá, começou a estudar o material. Inicialmente, foram utilizadas técnicas de microtomografia computadorizada por raios X, que permitiram uma análise detalhada do interior do fóssil. Posteriormente, os cientistas combinaram métodos como radiação síncrotron e microscopia de alta resolução para investigar os tecidos fossilizados e os processos de cicatrização em nível celular.
Em abril de 2023, a equipe levou suas análises ao Oak Ridge National Laboratory (ORNL), nos Estados Unidos, onde utilizaram uma técnica inovadora baseada em nêutrons. Essa abordagem possibilitou a obtenção de imagens tridimensionais do interior da costela sem danificar o fóssil ou os tecidos preservados, confirmando a presença de vasos sanguíneos mineralizados. Segundo Marcella Berg, professora assistente de física da Universidade de Regina, os nêutrons complementam as informações obtidas com raios X, especialmente na detecção de elementos leves como o hidrogênio, essenciais para identificar tecidos moles.
A utilização de dois instrumentos do laboratório foi fundamental para o estudo. O Multimodal Advanced Radiography Station (MARS), que produz nêutrons frios, foi utilizado para identificar sinais de tecidos moles e regiões ricas em hidrogênio, além de detalhes mais finos em ossos menores, âmbar e escamas fossilizadas. Já o Virtual Environment for Neutron Sciences (VENUS) utiliza nêutrons de alta energia para revelar estruturas internas mais profundas e gerar imagens tridimensionais de amostras maiores, como a costela de Scotty. Essas técnicas forneceram uma compreensão mais detalhada do processo de cicatrização interrompido, além de confirmar a presença de uma vasta rede de vasos sanguíneos mineralizados, algo inédito em fósseis de dinossauros.
Segundo Mauricio Barbi, professor de física da Universidade de Regina, os resultados representam uma descoberta extraordinária, comparável a uma “loteria científica”. A preservação de vasos sanguíneos em um fóssil de tamanha antiguidade oferece uma oportunidade única de entender os processos biológicos do passado. Os pesquisadores pretendem expandir suas análises para outros fósseis, incluindo materiais de âmbar, escamas fossilizadas e ossos de diferentes espécies de dinossauros, buscando padrões de cicatrização, sinais de doenças e lesões preservados ao longo de milhões de anos.
Jerit Mitchell destacou a importância de explorar coleções fósseis muitas vezes subutilizadas, afirmando que a utilização de fontes avançadas de imagem, como fontes de nêutrons e raios X, permite novas descobertas sobre a vida antiga, revelando segredos que permanecem escondidos há milhões de anos. Essas pesquisas representam um avanço significativo na paleontologia, abrindo novas possibilidades para o estudo de tecidos moles e processos de recuperação de organismos extintos.









