O pesquisador brasileiro Mario Murakami, reconhecido por sua atuação no desenvolvimento de soluções biotecnológicas, foi um dos vencedores da edição de 2026 do Prêmio FCW, concedido pela Fundação Conrado Wessel. Conhecido como o “Nobel do Brasil”, o prêmio destaca sua contribuição para a ciência nacional, especialmente por seu trabalho inovador envolvendo enzimas de capivaras e suas aplicações na transformação de resíduos agroindustriais em biocombustíveis.
Murakami, que também ocupa o cargo de diretor do Laboratório Nacional de Biorrenováveis (LNBR), órgão vinculado ao Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, São Paulo, liderou uma pesquisa que identifica enzimas no intestino de capivaras capazes de auxiliar na conversão de resíduos como bagaço de cana, cascas e sementes de frutas em componentes utilizáveis na produção de etanol e outros biocombustíveis. Como o Brasil é um dos maiores produtores mundiais de biomassa vegetal, essa descoberta tem potencial para reduzir a dependência do país em relação ao petróleo, promovendo uma matriz energética mais sustentável.
A complexidade na obtenção de moléculas a partir de biomassa vegetal reside na resistência estrutural dos materiais, que dificulta a extração de açúcares essenciais ao processo de fermentação. Para superar esse obstáculo, a equipe de Murakami buscou inspiração na digestão de herbívoros, especialmente capivaras, que se alimentam de gramíneas e folhas estruturalmente semelhantes ao bagaço de cana e à palha de milho. A particularidade das capivaras reside na capacidade de aproveitar eficientemente os açúcares presentes nesses materiais, graças à microbiota única de seu trato digestivo.
Para investigar essa capacidade, amostras de duas partes intestinais de três capivaras foram coletadas e submetidas a análises genéticas detalhadas, com o objetivo de identificar microrganismos ativos na digestão de açúcares e as enzimas envolvidas nesse processo. Como resultado, foram descobertas duas famílias de enzimas até então desconhecidas pela ciência: GH173 e CBM89. A enzima GH173 apresenta maior potencial na degradação da lactose, podendo futuramente ser aplicada na indústria de alimentos e derivados lácteos. Já a CBM89 mostrou-se mais eficiente na facilitação do aproveitamento da biomassa vegetal, com potencial para uso na produção de biocombustíveis e etanol de segunda geração.
Murakami explica que a digestão da capivara deve ser encarada como um grande biorreator, onde resíduos vegetais entram e energia é gerada. A energia produzida na natureza, na forma de ácidos graxos e lipídios, poderia ser direcionada para a geração de etanol ou combustíveis de aviação sustentáveis, caso se aprimore a compreensão do processamento digestivo do animal. Essa abordagem visa transformar resíduos agroindustriais que, atualmente, muitas vezes seriam descartados, em fontes de energia limpa.
A pesquisa de Murakami e sua equipe representa uma contribuição significativa para a biotecnologia brasileira, especialmente por explorar a biodiversidade do país e suas vantagens comparativas, como a agricultura consolidada e a maior biodiversidade do planeta. Segundo o pesquisador, o reconhecimento com o Prêmio FCW reflete um esforço de duas décadas de trabalho, envolvendo uma equipe multidisciplinar do CNPEM e colaborações internacionais, que demonstram a capacidade do Brasil de liderar projetos científicos de alto impacto.
Para Murakami, o grande diferencial do Brasil é sua potencialidade de aplicar a bioeconomia, tema que deve ganhar ainda mais relevância diante das mudanças climáticas globais. Ele reforça que o país possui recursos e conhecimentos para evoluir de uma posição de fornecedor de commodities para uma nação que gera tecnologia e produtos finais de alto valor agregado. Com publicações em revistas de renome internacional, como Nature e Science, o pesquisador evidencia o reconhecimento global do potencial brasileiro na área.
Ao encerrar, Murakami destaca a importância de aproveitar a biodiversidade e os recursos naturais do Brasil de forma responsável, promovendo inovação e sustentabilidade. Ele acredita que o avanço na pesquisa de enzimas de capivaras e outros estudos biotecnológicos podem consolidar o país como protagonista em soluções estratégicas para o futuro energético e ambiental.








