Um estudo recente publicado na revista British Journal of Ophthalmology revelou uma possível relação entre o uso prolongado de tadalafila, medicamento amplamente utilizado no tratamento da disfunção erétil, e um aumento no risco de desenvolver glaucoma em homens com mais de 40 anos. A pesquisa, que analisou dados de quase 74 mil indivíduos, aponta que aqueles que fizeram uso contínuo do medicamento apresentaram uma probabilidade 22% maior de serem diagnosticados com a doença ocular.
A investigação, conduzida por pesquisadores que utilizaram informações da plataforma de dados clínicos TriNetX, envolveu 73.854 homens com idade igual ou superior a 40 anos. Metade desse grupo havia recebido prescrição de tadalafila ou de outros medicamentos da mesma classe, conhecidos como inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (PDE5i), utilizados no tratamento da hiperplasia prostática benigna — condição que causa aumento da próstata e dificuldades na urinação. A outra metade não utilizava esses medicamentos. O estudo acompanhou os participantes por até cinco anos, monitorando a incidência de glaucoma, hipertensão ocular e o início de tratamentos específicos contra a doença.
Para garantir a validade dos resultados, os pesquisadores ajustaram as comparações levando em conta fatores como idade, etnia, hábitos de tabagismo, consumo de álcool, uso de outros medicamentos e condições de saúde pré-existentes. Os dados demonstraram que, ao longo do período de acompanhamento, a incidência de glaucoma foi de aproximadamente 3,93% entre os usuários de tadalafila, enquanto no grupo de controle essa taxa foi de 3,16%. Assim, os indivíduos que usaram o medicamento apresentaram um risco 22% maior de receber um diagnóstico de glaucoma.
Além do aumento no risco de glaucoma, o estudo identificou que a hipertensão ocular foi 32% mais frequente entre os usuários do fármaco. A forma mais comum da doença, o glaucoma primário de ângulo aberto, também apresentou uma incidência 33% maior nesse grupo. Da mesma forma, a probabilidade de início de tratamento contra glaucoma foi 33% maior entre os que usaram tadalafila por períodos prolongados.
A explicação para essa possível associação ainda não está completamente esclarecida. Como a tadalafila pertence à classe dos inibidores da PDE5, medicamentos que atuam no relaxamento da musculatura lisa e na melhora da circulação sanguínea, uma das hipóteses levantadas é que seu uso possa alterar a circulação ocular, afetando o nervo óptico. A retina, a coroide e o própria nervo óptico dependem de um equilíbrio delicado de circulação sanguínea, pressão arterial e intraocular, fatores que podem ser influenciados pelo medicamento. No entanto, os autores do estudo ressaltam que ainda não há um mecanismo comprovado que explique essa relação, e que são necessários novos estudos para entender como o uso prolongado de inibidores da PDE5 pode afetar a fisiologia ocular.
Por se tratar de uma pesquisa observacional e retrospectiva, os resultados indicam uma associação, mas não estabelecem uma relação de causa e efeito direta. Os pesquisadores também destacaram limitações, como a incapacidade de acompanhar mudanças nas prescrições ao longo do tempo ou de determinar exatamente como os medicamentos foram utilizados. Além disso, o estudo envolveu principalmente homens com mais de 40 anos que apresentavam sintomas urinários, o que pode limitar a aplicabilidade dos resultados a outros grupos, como homens mais jovens ou usuários ocasionais do medicamento.
Apesar da associação observada, os autores do estudo recomendam que os pacientes não interrompam o uso de tadalafila por conta própria. Para aqueles que fazem uso prolongado do medicamento, especialmente quem possui fatores de risco para glaucoma — como histórico familiar, alta miopia, glaucoma prévio ou hipertensão ocular — é importante realizar avaliações oftalmológicas iniciais e acompanhamento regular. Essa orientação visa prevenir possíveis complicações, considerando que a relação entre o medicamento e o aumento do risco de glaucoma ainda necessita de confirmação por estudos futuros mais aprofundados.








