Nos últimos anos, as canetas contendo medicamentos para tratar diabetes e obesidade têm ganhado popularidade como alternativas eficazes na redução de peso. Apesar do potencial desses tratamentos, especialistas ressaltam que o sucesso na manutenção do emagrecimento depende fundamentalmente de mudanças no estilo de vida, uma vez que esses medicamentos, por si só, não oferecem uma solução definitiva para o controle do peso a longo prazo.
A obesidade é reconhecida como uma doença crônica, assim como hipertensão e diabetes, o que significa que o tratamento deve ser contínuo e acompanhado de estratégias que promovam mudanças comportamentais. O endocrinologista Paulo Rosenbaum, do Einstein Hospital Israelita, explica que a interrupção do tratamento muitas vezes resulta no retorno do peso perdido, não por falta de esforço ou força de vontade do paciente, mas devido a uma resposta biológica do organismo que tenta recuperar o peso anterior.
As canetas contendo princípios ativos como semaglutida e tirzepatida atuam sobre o hormônio GLP-1, responsável pelas sensações de fome e saciedade. Ao bloquear sua ação, esses medicamentos reduzem o apetite, facilitando a perda de peso. No entanto, ao cessar o uso, o organismo reativa mecanismos que favorecem o ganho de peso, o que explica por que esses tratamentos não devem ser considerados soluções rápidas. Rosenbaum alerta que, embora esses medicamentos possam diminuir o apetite e promover emagrecimento, sem mudanças na alimentação, prática de exercícios físicos e adoção de comportamentos mais saudáveis, a tendência é que o peso seja recuperado após a suspensão do tratamento.
Uma revisão sistemática publicada em janeiro no periódico BMJ reforça essa compreensão, analisando 37 estudos com mais de 9.300 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os pesquisadores observaram que, após a interrupção do tratamento, os participantes recuperaram cerca de 0,4 kg por mês, o que, ao longo de aproximadamente um ano e sete meses, poderia levar ao retorno ao peso inicial. Os estudos incluíram diferentes classes de medicamentos, desde opções mais antigas como sibutramina e orlistate até terapias mais recentes com liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Os participantes permaneceram em média 39 semanas em tratamento, seguidas de um acompanhamento de 32 semanas após a interrupção, o que permitiu avaliar o comportamento do peso nesse período.
Os resultados indicam que, em média, os indivíduos perderam 8,3 kg durante o tratamento — mais que o dobro da perda observada nos grupos controle. Contudo, após o fim do uso, o peso voltou a aumentar gradualmente, reforçando a importância de estratégias complementares. Além do peso, os benefícios metabólicos adquiridos, como melhorias na glicemia, colesterol e pressão arterial, também tendem a diminuir após a suspensão do medicamento.
Segundo Rosenbaum, a manutenção dos resultados depende de hábitos saudáveis, incluindo uma alimentação rica em proteínas e fibras, que aumentam a saciedade e reduzem o consumo de ultraprocessados, além da prática regular de exercícios físicos, que ajuda a preservar a massa magra, elevar o gasto energético e melhorar a saúde cardiovascular. Outros fatores essenciais incluem dormir bem, para regular os hormônios relacionados ao apetite, e controlar o estresse, que pode desencadear episódios de alimentação emocional.
Embora alguns pacientes consigam manter parte do peso perdido mesmo após interromper a medicação, a maioria apresenta mecanismos de defesa do organismo contra a perda de gordura, processos que tiveram importância evolutiva para a sobrevivência em períodos de escassez de alimentos. Rosenbaum explica que esses mecanismos dificultam a manutenção do peso, especialmente em indivíduos que perderam mais peso, tinham obesidade mais grave ou não mantêm hábitos saudáveis de forma consistente.
Por fim, o especialista reforça que o objetivo do tratamento deve ser a gestão de uma condição crônica, e não uma perda de peso rápida. As canetas para emagrecer representam uma ferramenta importante nesse contexto, mas o sucesso a longo prazo depende de uma estratégia integrada, envolvendo o paciente, o médico e uma equipe multiprofissional, que promova mudanças duradouras no estilo de vida.








