Nos dias atuais, a internet e a cultura popular frequentemente reforçam a ideia de que existe uma hierarquia de masculinidade baseada em atributos como força, beleza, influência e desempenho sexual. Nesse paradigma, os indivíduos considerados “machos alfa” ocupam o topo dessa escala, sendo associados a características de dominância, superioridade e liderança, enquanto aqueles que não se enquadram nesses critérios seriam considerados “beta” ou “soyboys”, classificados como fracos e submissos. Essa visão simplificada, no entanto, não corresponde à complexidade das relações sociais humanas ou às dinâmicas observadas no reino animal.
O conceito de “macho alfa” tem origem na década de 1940, quando o etólogo alemão Rudolf Schenkel estudou lobos em cativeiro. Posteriormente, na década de 1970, o biólogo L. David Mech popularizou o termo ao publicar o livro The Wolf. Apesar de sua influência, Mech, atualmente com 89 anos, reconhece que a ideia de um líder dominante por força física ou atração sexual é ultrapassada. A teoria original sugeria que, em uma matilha de lobos, o “macho alfa” era um animal que liderava o grupo por ser fisicamente superior e mais atraente para as fêmeas, impondo sua autoridade por meio de disputas constantes.
Porém, estudos mais recentes demonstram que essa configuração não reflete a organização social verdadeira dos lobos na natureza. Em um artigo publicado em 1999 no Canadian Journal of Zoology, Mech revelou que as matilhas de lobos selvagens funcionam mais como famílias, compostas por um casal reprodutor e seus descendentes. Nesses grupos, não há necessidade de disputas constantes pelo status de liderança; os indivíduos ocupam posições por sua função natural, e não por força ou agressividade. Além disso, as fêmeas desempenham papéis tão importantes quanto os machos, coordenando atividades como o cuidado e a defesa dos filhotes, enquanto os machos lideram a busca por alimento e a movimentação do grupo.
Essa compreensão também se aplica a outros animais. Algumas espécies de primatas, por exemplo, apresentam relações de dominância, mas essas não seguem um padrão fixo de “alfa” sempre sendo macho ou sempre vencendo confrontos. Um estudo de 2025, que analisou dados de 253 populações de 121 espécies de primatas ao longo de cinco anos, revelou que mais da metade das interações entre machos e fêmeas envolviam conflitos ou sinais de domínio. A pesquisa mostrou que, em 17% das populações, os machos dominavam de forma constante, enquanto em 13%, as fêmeas exerciam maior controle. Em 70% dos casos, não havia uma dominância clara de um sexo sobre o outro, indicando que a dinâmica social varia bastante entre espécies e contextos.
No que diz respeito aos humanos, a ideia de que o “alfa” sempre é um homem forte, agressivo e dominador é ainda mais distorcida. Estudos indicam que o status social e influência na sociedade humana não se resumem a atributos físicos ou comportamentais ligados à força ou agressividade. Em 2001, uma pesquisa publicada na revista Evolution and Human Behavior destacou que o reconhecimento social pode ocorrer por dois caminhos distintos: a dominância, baseada em força, intimidação e ameaça; e o prestígio, conquistado por meio de competência, conhecimento e habilidades reconhecidas voluntariamente pelos demais. Assim, indivíduos podem exercer liderança sem recorrer à força ou ao medo, como é comum em profissões de alta especialização ou liderança intelectual.
Além disso, o conceito de “macho alfa” disseminado na internet e na cultura popular não corresponde a uma característica biológica única. Pesquisas indicam que atributos como agressividade, desempenho sexual, força física, independência e riqueza não estão associados a um gene específico. As relações de hierarquia entre humanos são influenciadas por fatores sociais, culturais, ambientais e pessoais, e variam de acordo com o contexto, a idade, o grupo social e as alianças formadas.
Por fim, estudos de 2010 reforçam que a dominância, seja ela por força ou prestígio, está relacionada a traços de personalidade distintos. Enquanto a dominância tende a estar associada a traços como narcisismo, agressividade e baixa amabilidade, o prestígio está ligado a autoestima genuína, amabilidade, responsabilidade e comportamentos pró-sociais. Assim, a ideia de um “macho alfa” como uma figura universal e invariável é uma simplificação que ignora a complexidade das relações sociais humanas e animais, além de desconsiderar que o verdadeiro poder está na capacidade de influenciar e liderar de forma respeitosa e colaborativa.







