Pesquisadores identificaram que alguns objetos de ferro utilizados por membros das elites minoica e micênica na Grécia durante a Idade do Bronze eram feitos com ferro proveniente de meteoritos, uma descoberta que reforça a ideia de que materiais de origem extraterrestre tinham valor social e simbólico na antiguidade. A análise, publicada em julho no Journal of Archaeological Science, foi conduzida por uma equipe composta por especialistas do Museu Nacional de História Natural, na França, e da Universidade Nacional e Kapodistriana de Atenas, na Grécia. A investigação envolveu o exame de 91 objetos de ferro, provenientes de 33 sítios arqueológicos e preservados em 19 museus, datados de aproximadamente 3.800 a 3.000 anos atrás, período que abrange o final da Idade do Bronze.
A pesquisa revelou que 13 desses objetos eram anéis contendo uma quantidade significativa de níquel, elemento químico que costuma indicar origem meteórica do ferro. Desses, nove apresentaram alta probabilidade de terem sido produzidos com ferro de meteoritos, enquanto um outro também pode ter origem extraterrestre, embora ainda exija investigação adicional. Os demais objetos, embora também de ferro, foram identificados como produzidos por processos de fundição a partir de minério terrestre, prática que teria começado na região por volta de 1400 a.C. A presença de ferro meteórico em objetos de elite destaca a sua importância social e simbólica, especialmente considerando a raridade do material na época, já que a metalurgia do ferro ainda não era amplamente difundida na Idade do Bronze.
Meteoritos, que são fragmentos de rochas ou metais que atravessam a atmosfera terrestre e chegam ao solo, muitas vezes apresentam altos teores de ferro e níquel, tornando-se recursos valiosos e altamente desejados na antiguidade. Naquela época, o ferro proveniente de meteoritos era especialmente raro e, por isso, possuía um valor simbólico e social elevado. Os objetos analisados, sobretudo anéis, eram frequentemente encontrados em túmulos de alto status, acompanhados de outros itens valiosos como vasos de ouro, peças de âmbar e selos de pedra. Um exemplo notável foi um anel encontrado na ilha de Creta, no sítio de Anemospilia, que ainda estava no dedo de uma pessoa considerada possivelmente um sacerdote, indicando seu alto status social.
A equipe de pesquisadores utilizou a técnica de fluorescência de raios X (XRF) para estudar os objetos sem danificá-los, uma metodologia que permite identificar os elementos químicos presentes na superfície das peças. A presença de níquel foi fundamental para indicar que o ferro tinha origem meteórica, já que esse elemento é comum em muitos meteoritos de ferro. Além disso, a análise revelou que a maioria dos objetos estudados foi produzida com ferro fundido de origem terrestre, o que sugere uma coexistência de diferentes fontes de ferro na região durante o período em questão. Os resultados indicam que o uso de ferro meteórico começou a declinar aproximadamente na mesma época em que os centros palacianos minoicos e micênicos entraram em declínio, por volta do final da Idade do Bronze.
A origem dos meteoritos utilizados nessas joias também levanta hipóteses sobre o comércio na região do Mediterrâneo oriental, com possibilidades de importação do Egito, devido às condições favoráveis de preservação em ambientes áridos. Como a paisagem grega era marcada por mares e áreas úmidas, a conservação de meteoritos era mais difícil, reforçando a hipótese de que esses materiais poderiam ter sido trazidos por redes comerciais que conectavam o Oriente Próximo e outras regiões. A descoberta sugere ainda que a moda de usar anéis feitos de ferro meteórico, popular na fase final da Idade do Bronze na Grécia, pode ter desaparecido naturalmente, acompanhando o declínio dos centros políticos e econômicos da época, sem uma causa única definida.
Em suma, o estudo revela que objetos de origem extraterrestre tinham um papel significativo na sociedade da Idade do Bronze na Grécia, funcionando como símbolos de poder e prestígio. Além de esclarecer aspectos tecnológicos e comerciais daquele período, a pesquisa evidencia que, há milhares de anos, materiais caídos do céu já eram utilizados como forma de ostentação, destacando a importância do valor simbólico da raridade e da origem do metal na construção das hierarquias sociais da antiguidade.







