Pesquisadores descobriram na região noroeste da Argentina um fóssil de um ancestral dos mamíferos que viveu há aproximadamente 236 milhões de anos, durante o período Triássico, uma fase de reconstrução ecológica após uma das maiores extinções em massa da história do planeta. A análise, publicada na revista Frontiers in Mammal Science nesta quinta-feira (13 de agosto), sugere que esse ancestral já apresentava características de viviparidade, ou seja, a capacidade de dar à luz filhotes vivos, o que pode alterar a compreensão da evolução reprodutiva dos mamíferos.
O fóssil em questão pertence a um cinodonte, um grupo de répteis que, ao longo do tempo, evoluiu para os primeiros mamíferos. A descoberta foi possível graças ao exame de uma marca microscópica observada em um fóssil de um animal adulto de C. theotonicus, uma espécie de cinodonte. Essa marca revelou uma estrutura típica de tecidos de mamíferos, indicando que o animal dava à luz filhotes em estágio neonatal. A partir dessa evidência, os pesquisadores conseguiram calcular a massa corporal do filhote ao nascer, estimando aproximadamente 1,7 kg, e compararam esse dado com a massa ao atingir a fase adulta, que era de cerca de 12 kg. Assim, concluíram que o peso do filhote correspondia a cerca de 14% do peso do animal ao morrer, uma proporção significativamente maior do que a observada em répteis (0,1% a 0,6%) e aves (1,3% a 4,5%), mas semelhante ao padrão de alguns mamíferos placentários modernos, cujo filhote pode representar até 18,77% do peso do adulto.
Segundo o autor principal do estudo, Leandro Gaetano, paleontólogo do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (CONICET) da Argentina, essa evidência indica que o parto de filhotes vivos já existia em pelo menos um ancestral dos mamíferos há cerca de 236 milhões de anos. Ele explica que essa descoberta sugere que a viviparidade, ou seja, a capacidade de desenvolver os embriões dentro do corpo da mãe, teria se originado na linhagem dos mamíferos pelo menos 90 a 95 milhões de anos antes do que se acreditava anteriormente, alterando assim o entendimento sobre a evolução reprodutiva desses animais.
A pesquisa também destaca que os cinodontes, grupo ao qual pertence o fóssil, se desenvolveram durante o Triássico, um período de grande transformação ecológica após uma das maiores extinções em massa da história da Terra. Nesse contexto, a proteção do embrião dentro do corpo da mãe, potencializada por fatores como competição por recursos, pressão predatória, aridez, forte sazonalidade e outros desafios ambientais, poderia ter favorecido a evolução da viviparidade nesses animais, conferindo vantagens adaptativas.
Além das evidências de crescimento neonatal, os pesquisadores observaram que os ossos fossilizados de C. theotonicus indicam que o animal pesava cerca de 1,7 kg ao nascer e atingia aproximadamente 12 kg ao final de sua vida, totalizando uma massa neonatal de cerca de 14% do peso adulto. Tal proporção é relevante por estar mais próxima dos padrões observados em mamíferos placentários modernos do que em outros grupos de vertebrados, como répteis e aves, reforçando a hipótese de que a reprodução vivípara já estava presente em ancestrais de mamíferos há mais de 200 milhões de anos.
A descoberta, portanto, revela que o modelo de reprodução por viviparidade, considerado uma característica distintiva dos mamíferos, já existia muito antes do surgimento dos mamíferos verdadeiros. Essa evidência contribui para uma compreensão mais aprofundada da evolução reprodutiva dos primeiros vertebrados mamíferos, ampliando o entendimento sobre como esses animais se adaptaram às condições ambientais do passado remoto.









