Uma aranha da espécie Portia fimbriata, conhecida como aranha-saltadora e nativa da Austrália, apresentou contrações nas patas e movimentos oculares enquanto dormia, segundo pesquisadores da Universidade de Bonn, na Alemanha. Registrado durante a noite, o comportamento guarda semelhanças com o sono REM dos seres humanos, fase associada aos sonhos. O estudo foi publicado na segunda-feira (26), na revista PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences).
Os cientistas acompanharam o animal durante vários dias e identificaram dois estágios distintos de descanso. A observação reforça a hipótese de que os aracnídeos não entram apenas em um estado de imobilidade, mas podem apresentar períodos de sono organizados em fases com características diferentes.
Aranha apresentou dois estágios de descanso
Na primeira etapa, descrita pelos pesquisadores como “quiescência”, a aranha reduz a atividade e permanece em repouso. Nesse período, ela ainda pode realizar movimentos de limpeza e alterar gradualmente a posição do corpo até ficar pendurada na teia, de cabeça para baixo.
Em seguida, o animal passa a exibir movimentos dos olhos e espasmos nas patas. Essas manifestações levaram a equipe a classificar a segunda fase como semelhante ao sono REM. Em seres humanos, o estágio é marcado por movimentos rápidos dos olhos e mudanças na atividade muscular, além de estar associado à ocorrência de sonhos.
A comparação, porém, não permite concluir que os mecanismos do sono sejam iguais nos dois grupos. Os pesquisadores não mediram diretamente a atividade cerebral das aranhas e, por isso, não é possível afirmar que elas sonham ou que a fase observada tenha exatamente a mesma origem do sono REM humano.
Para verificar se os animais estavam de fato dormindo, a equipe avaliou também a reação deles a estímulos sonoros. Durante os períodos de repouso, as aranhas demoravam mais para responder aos sons. O efeito foi ainda mais intenso na fase semelhante ao sono REM.
“Esse efeito foi particularmente forte durante a fase semelhante ao sono REM”, afirmou Nadja Geiger, coautora do estudo, em entrevista à ABC News. Segundo ela, as respostas foram significativamente atrasadas e algumas aranhas não reagiram ao som.
Comportamento de caça amplia interesse sobre o sono
A Portia fimbriata pode atingir aproximadamente o tamanho de uma moeda na fase adulta, mas apresenta estratégias de caça complexas. Em vez de se alimentar principalmente de insetos, a espécie predadora captura outras aranhas e utiliza diferentes artimanhas para atraí-las.
Uma das estratégias consiste em imitar as vibrações produzidas por um inseto preso em uma teia. Ao interpretar esses sinais como indicativo de uma possível presa, a aranha responsável pela teia se aproxima. Nesse momento, pode acabar capturada pela Portia fimbriata.
Esse comportamento torna a espécie especialmente relevante para estudos sobre a relação entre sono, aprendizagem e cognição. Processos ligados à aquisição de informações e à resolução de problemas podem estar relacionados ao período de descanso, embora o estudo ainda não determine como essas capacidades se conectam às fases identificadas.
A maior parte do conhecimento científico sobre os estágios do sono foi construída a partir de pesquisas com vertebrados, como mamíferos, aves e répteis. A identificação de padrões semelhantes em aranhas, que possuem um sistema nervoso muito diferente, levanta questões sobre a origem e a evolução do sono.
“Se animais com cérebros e mundos sensoriais tão diferentes apresentam sono estruturado com fases semelhantes ao REM, isso sugere que a arquitetura básica do sono pode ser muito mais antiga do que pensávamos. E mais difundida”, afirmou a ecóloga comportamental Daniela Rößler, também coautora do estudo.
Pesquisadores planejam ampliar a investigação
Os próximos trabalhos deverão comparar o comportamento de diferentes espécies de aranhas e observar como esses animais descansam em ambientes naturais. A equipe também pretende investigar os efeitos da luz artificial durante a noite, das mudanças climáticas e das alterações ou perturbações em seus habitats sobre os padrões de sono.
Outra frente de pesquisa será compreender melhor a relação entre as fases de descanso e as capacidades cognitivas das aranhas. Até o momento, os resultados não respondem se esses animais sonham, mas indicam que o sono deles é mais complexo do que uma simples ausência de movimento durante a noite.







