Partes de frutas, legumes e verduras normalmente descartadas, como cascas, sementes, talos e miolos, podem concentrar quantidades relevantes de fibras e nutrientes. A conclusão é de um estudo do King’s College London publicado na revista International Journal of Food Sciences and Nutrition na última quinta-feira (29). A pesquisa comparou 12 alimentos consumidos apenas nas partes tradicionais e em sua totalidade, em uma análise chamada “da raiz à ponta”.
Entre os alimentos avaliados estavam pimentões, brócolis, abóbora, kiwi, melancia e abacaxi. Os pesquisadores analisaram os produtos frescos e crus, considerando tanto a porção normalmente ingerida quanto elementos como cascas, caules, sementes e miolos. Em 10 dos 12 alimentos, a composição completa apresentou mais fibras do que a parte consumida habitualmente.
Baixo consumo de fibras coincide com alto desperdício de alimentos
A recomendação médica é que uma pessoa consuma aproximadamente 30 gramas de fibras por dia. Esses nutrientes contribuem para o funcionamento do sistema digestivo, ajudam na prevenção do diabetes tipo 2 e de doenças cardíacas e aumentam a sensação de saciedade, o que pode auxiliar no processo de emagrecimento.
Apesar da importância das fibras, a maior parte da população não alcança essa quantidade. Segundo o estudo, apenas 4% dos moradores do Reino Unido atingem a meta diária. Na média, os britânicos consomem 16 gramas de fibras por dia, pouco mais da metade do volume recomendado.
O cenário ocorre ao mesmo tempo em que cerca de 10 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente. Desse total, 36% correspondem a produtos frescos. Para os autores, o descarte representa não apenas uma perda de alimentos, mas também de componentes que poderiam contribuir para reduzir a deficiência de fibras.
“As pessoas estão descartando uma parte significativa dos produtos que compram. E essas são partes da planta que poderiam ajudar a suprir nossa deficiência de fibras alimentares”, afirmou Rachel Gibson, autora da pesquisa e professora de Nutrição e Dietética do King’s College London, em comunicado.
Gibson também destacou o impacto financeiro do desperdício. “Não se trata apenas de uma perda nutricional; é também uma perda financeira; você está efetivamente jogando fora uma parte substancial daquilo que pagou”, declarou.
Diferenças foram observadas entre as partes dos alimentos
Os resultados mostraram variações expressivas na concentração de fibras. A casca da melancia, por exemplo, contém 2,10 gramas de fibras a cada 100 gramas de alimento, quantidade equivalente à encontrada em uma fatia de pão integral.
No caso da abóbora-manteiga, apenas a casca e as sementes apresentam 9,25 gramas de fibras por 100 gramas. De acordo com a pesquisa, uma porção equivalente a uma maçã pequena de sementes de abóbora forneceria quase um terço da necessidade diária de fibras.
O abacaxi também apresentou uma diferença significativa. A casca e o miolo do fruto concentram 453,7% mais fibras do que a polpa, o que representa aproximadamente cinco vezes a quantidade encontrada na parte tradicionalmente consumida.
A vantagem, porém, não se repete em todos os casos. Os talos do brócolis, por exemplo, têm 28,4% menos fibras do que as flores, que costumam ser aproveitadas nas refeições. Segundo Gibson, a diferença geral entre as partes consumidas e as normalmente descartadas foi “impressionante”.
Participantes apontaram barreiras ao aproveitamento integral
Para avaliar a aceitação desse tipo de alimentação, os pesquisadores testaram uma dieta especial com alunos e funcionários do King’s College. O objetivo era observar como 40 participantes reagiriam ao consumo de partes normalmente descartadas e se os benefícios nutricionais influenciariam a decisão de adotar o modelo “da raiz à ponta”.
As opiniões ficaram divididas. Alguns participantes demonstraram preocupação com a digestibilidade de cascas e sementes. Outros relataram uma dificuldade mental relacionada ao consumo de partes que, culturalmente, costumam ser jogadas fora. A falta de informações nutricionais disponíveis na internet, especialmente nas redes sociais, também foi apontada como um obstáculo, devido à rápida mudança das tendências e à dificuldade de avaliar a credibilidade dos conteúdos.
Georgia Browne, autora principal da pesquisa, afirmou que os benefícios nutricionais foram considerados um incentivo mais forte do que a sustentabilidade ambiental. “Curiosamente, os participantes consideraram os benefícios nutricionais – particularmente o teor de fibras – como um motivador mais forte do que a sustentabilidade ambiental ao avaliar a adoção de uma alimentação que aproveitasse o alimento da raiz às pontas”, disse.
Pesquisadores defendem mudanças também na indústria
Em casa, o aproveitamento de cascas, sementes e caules pode ser incorporado por meio de receitas simples. Para os pesquisadores, no entanto, iniciativas individuais não são suficientes para produzir uma mudança ampla na redução do desperdício e no aumento do consumo de fibras.
Gibson defende que empresas de catering e fabricantes de alimentos também busquem formas de utilizar os resíduos gerados por frutas e vegetais para desenvolver refeições mais nutritivas. A proposta, segundo ela, não exige que as pessoas abandonem o prazer de comer nem que adotem uma alimentação considerada desagradável.
“Não se trata de perfeição nem de forçar as pessoas a comerem alimentos desagradáveis – trata-se de reconhecer o valor nutricional de componentes que fomos condicionados a descartar”, afirmou a professora. Ela acrescentou que essa foi justamente a razão para o King’s College testar o menu baseado no aproveitamento dos alimentos “da raiz à ponta”.









