Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado aponta que picadas de cobra podem desencadear acidentes vasculares cerebrais (AVC) mesmo quando o atendimento médico ocorre em tempo hábil. A investigação, que utilizou revisão sistemática e metanálise, analisou dados de 130 pacientes que sofreram AVC após envenenamento por serpentes, com os resultados publicados na revista científica PLoS Neglected Tropical Diseases.
Os casos estudados estavam distribuídos principalmente na Índia, representando 36,9% do total, seguida pelo Brasil, com 13,9%, e pelo Sri Lanka, com 10,8%. Além desses, registros foram feitos em outros 19 países, demonstrando a ocorrência global do problema. A taxa de mortalidade entre esses pacientes atingiu 23,4%, enquanto muitos sobreviventes apresentaram sequelas neurológicas significativas. O AVC isquêmico foi mais frequente que o hemorrágico, respondendo por 61,5% dos casos, mas ambos os tipos foram identificados, evidenciando a complexidade do impacto do veneno no organismo humano.
Segundo Wuelton Marcelo Monteiro, farmacêutico-bioquímico e autor do estudo, a população da Amazônia é particularmente vulnerável a esses eventos, tanto pelo número de casos quanto pela gravidade e mortalidade associadas. A dificuldade de acesso a serviços de saúde, marcada por longas distâncias e concentração de atendimento em áreas urbanas, contribui para atrasos no diagnóstico e tratamento, especialmente entre populações indígenas e ribeirinhas, que enfrentam obstáculos adicionais para receber cuidados adequados.
Um relatório divulgado em janeiro pela iniciativa global Strike Out Snakebite (SOS) destacou as dificuldades enfrentadas na gestão clínica dessas ocorrências. Desenvolvido com profissionais de saúde de países como Brasil, Índia e Nigéria, o documento aponta problemas na administração do soro antiofídico, além do reconhecimento de complicações graves, muitas vezes agravadas por longas distâncias e infraestrutura insuficiente. Nesse contexto, o diagnóstico e o tratamento precoces de eventos como o AVC tornam-se ainda mais difíceis, elevando os riscos de óbito e de sequelas permanentes. Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2025, o Brasil registrou 28.626 acidentes por picadas de serpentes e 149 óbitos, o que equivale a uma morte a cada dois dias.
Embora relatos isolados sobre o risco de AVC após picada de cobra já existissem na literatura médica, faltava uma análise mais abrangente do fenômeno. Monteiro explica que o estudo buscou sintetizar esse conhecimento disperso, embora reconheça que o AVC possa estar subdiagnosticado, especialmente em regiões com infraestrutura precária e acesso limitado a exames de imagem. Ele destaca ainda que as complicações secundárias ao AVC decorrente de envenenamento ofídico poderiam ser minimizadas com uma maior ampliação do acesso a serviços de saúde estruturados e especializados.
Os resultados também demonstram que o AVC não é uma complicação evitável apenas pelo atendimento precoce. Mesmo pacientes que receberam antiveneno em menos de seis horas após a picada desenvolveram AVC, seja hemorrágico ou isquêmico. Isso sugere que o tempo de resposta, embora importante, nem sempre impede a ocorrência de complicações neurológicas graves.
Do ponto de vista fisiológico, o aumento do risco de AVC após picada de cobra está relacionado aos efeitos complexos do veneno sobre o sistema circulatório. Diferentes toxinas presentes no veneno podem atuar de formas opostas, dependendo da espécie envolvida. Alguns venenos provocam alterações na coagulação sanguínea, levando a hemorragias por redução de plaquetas ou interferência nos fatores de coagulação. Outros causam inflamação no endotélio vascular e formação de trombos, predispondo o organismo à coagulopatia. Como consequência, o paciente pode desenvolver tanto AVC isquêmico quanto hemorrágico, além de tromboses ou hemorragias sistêmicas em outros órgãos, como coração, pulmões e rins.
Outro aspecto relevante destacado pelos especialistas é a gravidade dos eventos relacionados à picada de cobra. Diferentemente do AVC clássico, geralmente associado a fatores como hipertensão ou aterosclerose, os AVCs decorrentes de envenenamento ofídico tendem a ser mais extensos, podendo atingir múltiplos territórios cerebrais simultaneamente e provocar reações em cascata que afetem ambos os hemisférios cerebrais.
Os sinais de alerta, contudo, permanecem semelhantes aos de qualquer AVC, incluindo fraqueza súbita, dificuldades na fala, perda de visão ou alterações no nível de consciência. A distinção reside no contexto de envenenamento, frequentemente em áreas rurais ou remotas, o que dificulta o diagnóstico precoce. Os profissionais de saúde orientam que qualquer manifestação neurológica nesse cenário deve motivar o encaminhamento imediato a centros equipados com tomografia e suporte intensivo, para minimizar as sequelas e as chances de óbito.
No Brasil, há mais de 400 espécies de serpentes, das quais aproximadamente 15% são peçonhentas. As principais responsáveis por acidentes no país são as do gênero Bothrops, conhecidas como jararacas, que representam cerca de 90% dos casos. O soro antiofídico continua sendo o principal tratamento, pois atua na redução dos efeitos sistêmicos do veneno, principalmente nas alterações de coagulação. No entanto, mesmo com o uso do antiveneno, o risco de AVC não é completamente eliminado, uma vez que o tempo de circulação do veneno antes da administração pode já ter desencadeado processos irreversíveis.
Por isso, a orientação mais importante em caso de picada de cobra é procurar atendimento médico imediatamente. Os especialistas reforçam que a espera pelos sintomas não deve ocorrer, pois o tratamento precoce é vital, e torniquetes, muitas vezes utilizados de forma incorreta, podem agravar o quadro, levando à perda do membro afetado. Assim, a prioridade é buscar ajuda especializada o quanto antes, para reduzir os riscos de complicações neurológicas graves e de óbito.









