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Home Ciência

Estudo revela impactos das ondas de calor marinhas na reprodução de baleias jubarte

07/11/2026
Em Ciência
Tempo de leitura:4 minutos de leitura
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O aquecimento extremo dos oceanos pode comprometer a nutrição, a gestação e a reprodução das baleias jubarte, especialmente quando reduz a disponibilidade de presas. A conclusão é de um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Havaí em Mānoa, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica iScience. A pesquisa identificou alterações no metabolismo das fêmeas e mostrou que a falta de nutrientes dificulta a manutenção da gestação e de outras funções que exigem grande quantidade de energia.

Os cientistas investigaram os efeitos fisiológicos das ondas de calor marinhas a partir de quase oito anos de registros bioquímicos preservados nas barbatanas de baleias jubarte fêmeas encontradas encalhadas no Havaí. Formadas por queratina e localizadas na boca dos animais, essas estruturas filtram o alimento presente na água e crescem continuamente.

Por causa desse crescimento, as barbatanas funcionam como arquivos naturais. Seu material permite reconstruir informações sobre a alimentação, o metabolismo e as condições ambientais às quais cada baleia foi submetida ao longo do tempo. Dessa forma, os pesquisadores conseguiram analisar mudanças ocorridas antes, durante e depois de um período de aquecimento excepcional no Pacífico Norte.

A equipe combinou a análise de isótopos específicos de aminoácidos com modelos bioenergéticos. As ferramentas permitiram estimar como as baleias utilizavam os nutrientes, armazenavam energia e mobilizavam suas reservas. O foco foi a onda de calor marinha registrada entre 2014 e 2016, conhecida como The Blob.

“Essas descobertas nos dão uma visão de como as baleias realmente lidam com o estresse ambiental extremo”, afirmou Ching-Tsun Chang, autora principal do estudo. Ela foi pesquisadora de pós-graduação da Universidade do Havaí em Mānoa e atualmente é professora assistente da Universidade Nacional Sun Yat-sen, em Taiwan.

De acordo com Chang, estudos anteriores já haviam registrado uma redução tanto no número de baleias jubarte quanto na condição corporal dos animais durante o The Blob. A nova pesquisa avança ao detalhar os processos fisiológicos relacionados a esse cenário, incluindo a forma como as baleias alteraram o metabolismo e o uso de nutrientes, além das consequências para a reprodução.

Redução de presas limita o uso de energia

As jubartes dependem da energia acumulada nos períodos de alimentação para sustentar atividades como migrações, gestação e amamentação. Essas funções exigem reservas significativas. Quando alterações ambientais diminuem a oferta de alimento, as baleias precisam administrar os recursos disponíveis, o que pode afetar processos essenciais do ciclo de vida.

Durante o The Blob, os animais apresentaram mudanças metabólicas compatíveis com uma redução do gasto energético. Essa resposta pode ajudar a preservar as reservas diante da escassez de alimento, mas também limita a capacidade de manter atividades biologicamente exigentes. Entre elas estão a gestação e a produção de leite para os filhotes.

Os resultados indicaram que a insuficiência de nutrientes prejudicou a manutenção da gestação em seus estágios iniciais, inclusive no caso de fêmeas que já haviam engravidado. A descoberta contribui para explicar registros anteriores de queda no número de filhotes durante o período de aquecimento extremo no Pacífico Norte.

Relatórios da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, a NOAA, além de pesquisas acadêmicas e programas regionais de monitoramento, já apontavam sinais de estresse entre as jubartes durante o fenômeno. Entre os indícios estavam a redução nos avistamentos de baleias no Havaí e no Alasca, a diminuição do número de filhotes e evidências de estresse nutricional.

“O arquivo nos permite reconstruir o histórico nutricional e reprodutivo de um animal com detalhes precisos”, afirmou Kristi West, coautora do trabalho, diretora do Laboratório de Saúde e Encalhe da Universidade do Havaí e pesquisadora associada na área de Nutrição Humana, Alimentos e Ciências Animais da instituição.

Segundo West, a análise dos registros bioquímicos, combinada aos modelos bioenergéticos, permite identificar de que maneira eventos climáticos extremos ficam registrados no organismo das baleias. A abordagem também ajuda a relacionar a disponibilidade de alimento às mudanças no metabolismo e ao desempenho reprodutivo das fêmeas.

Temperatura do Pacífico pode aumentar a pressão sobre a espécie

A relevância dos resultados cresce diante da elevação da temperatura dos oceanos e da possibilidade de novos episódios de calor extremo no Pacífico Norte. O El Niño, fenômeno marcado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, pode modificar os padrões de temperatura, a circulação atmosférica e as condições oceânicas em diferentes áreas.

As condições previstas para 2026 e 2027 podem intensificar o aquecimento em partes do Pacífico. A dimensão do fenômeno e seus efeitos regionais dependerão da evolução das condições climáticas. Ainda assim, o aumento da temperatura do mar pode alterar a distribuição e a disponibilidade das presas em regiões importantes para a alimentação das baleias jubarte.

As baleias acumulam energia durante fases favoráveis de alimentação para utilizá-la posteriormente, inclusive em locais onde passam meses sem se alimentar de forma intensa. Quando a oferta de presas diminui, a capacidade de compensar essa perda pode ser insuficiente, com possíveis impactos sobre a condição corporal e o sucesso reprodutivo.

“Com o aumento da frequência de ondas de calor marinhas, espécies que acumulam reservas de alimento, como as baleias jubarte, podem enfrentar desafios crescentes em um oceano que está aquecendo rapidamente”, disse Brian Popp, coautor do estudo e professor de Ciências da Terra na Escola de Ciências Oceânicas e da Terra da Universidade do Havaí em Mānoa.

Para Popp, compreender as respostas fisiológicas das baleias será fundamental para projetar o comportamento das populações nas próximas décadas. No Havaí, as águas quentes têm importância no ciclo reprodutivo da espécie. A NOAA estima que até 12 mil baleias jubarte, mais da metade da população do Pacífico Norte, retornem à região entre novembro e maio para acasalar, dar à luz e amamentar os filhotes.

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