A plataforma Natureza ON ganhou uma nova versão com informações sobre regiões brasileiras expostas a eventos climáticos extremos, incluindo alagamentos, deslizamentos, incêndios florestais e ilhas de calor. Desenvolvida pela Fundação Grupo Boticário em parceria com o MapBiomas, a ferramenta combina imagens de satélite e dados públicos para indicar áreas vulneráveis e apresentar alternativas de enfrentamento baseadas no funcionamento dos ecossistemas.
O Natureza ON 2.0 foi apresentado novamente ao público nesta quinta-feira (5), após ter sido lançado oficialmente no ano passado, antes da COP 30, em Belém. A atualização acrescentou dados sobre incêndios florestais e ilhas de calor ao conteúdo que já reunia registros de alagamentos e deslizamentos.
A proposta é facilitar a identificação dos riscos presentes em cada território e contribuir para a preparação de moradores, administrações municipais, comerciantes e turistas. O acesso a esse tipo de informação é considerado relevante diante da ocorrência de chuvas intensas, secas históricas e ondas de calor, fenômenos que tendem a se repetir com maior frequência em diferentes regiões do planeta.
Como a intensidade e os efeitos desses eventos nem sempre podem ser estimados com facilidade, a falta de dados locais pode dificultar a adoção de medidas preventivas. A plataforma procura reduzir essa lacuna ao transformar informações técnicas em consultas mais acessíveis para o público.
Ferramenta é dividida em módulos com diferentes níveis de informação
O sistema está estruturado em três módulos. No Básico, o usuário encontra uma apresentação simplificada dos riscos identificados em determinada área, além de medidas que podem ser adotadas ou que já estejam em execução para diminuir os impactos. A consulta pode ser feita por meio da geolocalização do aparelho ou pela busca de um endereço específico, que permite visualizar as etiquetas de risco associadas ao local.
O Módulo Avançado reúne informações mais detalhadas, como séries históricas e relatórios. Esse conteúdo pode ser utilizado para orientar a população e também para apoiar a elaboração de políticas ambientais por órgãos públicos. A ferramenta permite ainda relacionar a ocorrência de desastres ambientais às condições socioeconômicas dos moradores de cada região, evidenciando quais grupos estão mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas.
Já o Módulo Colaborativo permite o registro de ocorrências pela própria população. Os usuários podem informar casos de enchentes, deslizamentos de terra e desabamentos, indicando a localização do evento. Antes de serem incorporados ao banco de dados, os relatos são analisados por especialistas e precisam ser aprovados.
Para André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário, a gratuidade e a facilidade de uso ampliam a possibilidade de que as pessoas conheçam os riscos dos locais onde moram, trabalham ou circulam regularmente.
Dados técnicos do MapBiomas ganham apresentação voltada ao público
O Natureza ON foi criado para aproximar da população informações que, tradicionalmente, eram consultadas sobretudo por pesquisadores e órgãos públicos. Os dados utilizados são produzidos pelo MapBiomas, iniciativa que reúne universidades brasileiras, organizações não governamentais e empresas de tecnologia na elaboração de mapas sobre a cobertura e o uso da terra no país.
Embora o material produzido pelo MapBiomas seja público e gratuito, os formatos técnicos dos mapas podem dificultar a interpretação por parte de quem não possui familiaridade com esse tipo de conteúdo. A plataforma reorganiza essas informações para mostrar, de forma mais direta, quais riscos estão presentes em cada território e que alternativas podem ajudar a reduzir a exposição da população.
Entre as possibilidades apresentadas estão as Soluções Baseadas na Natureza, que utilizam processos e características dos próprios ecossistemas como forma de proteção diante de eventos extremos. A versão atual também foi planejada para auxiliar políticos e gestores públicos na definição de medidas de adaptação.
O relançamento oficial da ferramenta deve ocorrer durante a COP 31, com início previsto para a próxima segunda-feira (9), em Antalya, na Turquia. Apesar da cerimônia programada para a conferência, a plataforma já está disponível para consulta. Organizada anualmente pela Organização das Nações Unidas, a COP reúne discussões sobre ações de enfrentamento às mudanças climáticas e a negociação de acordos internacionais na área ambiental.
Informações locais são consideradas essenciais para a adaptação climática
A plataforma está associada ao conceito de adaptação climática, que envolve preparar comunidades e territórios para responder aos impactos de eventos extremos. Especialistas defendem que esse processo precisa considerar a realidade local e contar com a participação de moradores e administrações municipais, que têm conhecimento mais próximo dos riscos existentes em bairros e cidades.
Juliana Baladelli, bióloga, especialista em Soluções Baseadas na Natureza e gerente de projetos da Fundação Grupo Boticário, afirma que as ações de adaptação devem ser implementadas nos locais onde as comunidades enfrentam diretamente os efeitos dos fenômenos climáticos. Ela fez parte do grupo de 78 especialistas escolhidos pela ONU para desenvolver indicadores destinados a medir o nível de adaptação dos países.
Na COP 30, realizada em Belém, no Pará, foram negociados 59 indicadores, que passaram a orientar avaliações internacionais. Segundo Baladelli, o Brasil apresentará na COP 31 um projeto piloto para tornar essas métricas mensuráveis. A iniciativa pretende implementar, testar e avaliar os indicadores, identificando o que funciona e quais aspectos precisam ser ajustados.
Nem todos os países têm estrutura para acompanhar o conjunto completo de indicadores. No Brasil, o MapBiomas já consegue reunir informações relacionadas a pelo menos metade deles, enquanto o Natureza ON amplia o acesso da população a esse conteúdo e facilita sua utilização na preparação para riscos climáticos.








