Uma pesquisa publicada em 26 de outubro no Journal of Social and Personal Relationships aponta que acontecimentos estressantes enfrentados fora da vida a dois podem afetar, ainda no mesmo dia, a percepção que uma pessoa tem sobre o próprio relacionamento. Participantes que passaram por uma quantidade de problemas acima do habitual relataram níveis menores de amor, paixão e intimidade emocional pelo parceiro ao final dessas jornadas.
O efeito observado não indica necessariamente a existência de conflitos ou desgaste entre o casal. De acordo com os resultados, dificuldades ocorridas no trabalho, problemas no transporte, doenças, tarefas domésticas ou desentendimentos com outras pessoas podem alterar temporariamente o estado emocional e fazer com que o indivíduo se sinta menos próximo do companheiro.
Para examinar essa possível influência, os pesquisadores acompanharam 100 casais residentes em uma grande cidade do Reino Unido. Durante 14 dias consecutivos, os participantes responderam individualmente a questionários todas as noites, depois de encerrarem as atividades, compromissos e obrigações daquele dia.
Os formulários registravam as situações consideradas estressantes e também pediam uma avaliação do humor. Além disso, cada pessoa deveria informar, em uma escala de zero a sete, a intensidade de três aspectos relacionados ao parceiro: amor, paixão e proximidade emocional.
A investigação foi conduzida para verificar se fatores externos ao relacionamento poderiam interferir em diferentes dimensões da experiência amorosa. Em declaração ao site PsyPost, Ece Yilmaz, pesquisadora da Universidade de Ottawa, no Canadá, e autora do estudo, explicou que a equipe procurou entender até que ponto esses sentimentos poderiam ser afetados por acontecimentos que não tinham origem diretamente na relação.
Quantidade de estresse no dia teve relação com avaliações mais baixas
Na análise dos dados, os pesquisadores identificaram um padrão: quando um participante enfrentava mais eventos estressantes do que o seu nível habitual, as notas atribuídas ao amor, à paixão e à intimidade com o parceiro eram menores naquela noite.
A associação permaneceu mesmo após a consideração de outros elementos, como o humor apresentado ao longo do dia, o tempo de duração do relacionamento e o grau de proximidade emocional relatado no dia anterior. Segundo os cálculos, cada situação estressante adicional esteve ligada a uma queda de 0,04 a 0,13 ponto na escala usada pelos pesquisadores.
Apesar de a variação ser relativamente pequena, os autores consideram que o resultado evidencia a influência imediata de experiências externas sobre a maneira como alguém avalia a própria relação. Assim, uma jornada marcada por um problema profissional, um conflito com um colega ou uma dificuldade no deslocamento pode repercutir na forma como a pessoa interpreta seus sentimentos ao chegar ao fim do dia.
O estudo não encontrou, porém, evidências de que indivíduos submetidos a níveis elevados de estresse de forma recorrente tenham, necessariamente, menos amor, paixão ou intimidade pelos parceiros. Na comparação feita ao longo dos 14 dias, não houve associação significativa entre manter uma rotina geralmente mais estressante e apresentar sentimentos mais fracos.
Para Ece Yilmaz, essa diferença é relevante. Uma pessoa acostumada a lidar com uma rotina exigente pode desenvolver estratégias para administrar esse cenário. Já um dia excepcionalmente difícil, com problemas acima do padrão pessoal, tende a provocar uma reação emocional mais imediata, capaz de influenciar a percepção sobre o relacionamento naquele momento.
Impacto sobre o parceiro ocorreu principalmente por meio do humor
Os pesquisadores também avaliaram se o estresse enfrentado diretamente por uma pessoa teria efeito sobre os sentimentos relatados pelo companheiro. Nesse caso, não foi identificada uma relação significativa entre os problemas vividos por um participante e os níveis de amor, paixão e intimidade informados pelo outro.
Isso não significa que o estresse de um dos integrantes seja indiferente para a relação. A equipe observou uma possibilidade de influência indireta, mediada por mudanças no humor. O problema enfrentado por uma pessoa pode alterar seu estado emocional, afetar a maneira como ela interage com o parceiro e, a partir dessa mudança na dinâmica do casal, influenciar a experiência do outro.
Os autores destacam que o estudo tem limitações. A maior parte dos participantes era jovem, branca e heterossexual, enquanto cerca de 70% eram estudantes. Aproximadamente 85% dos casais estavam namorando, e o tempo médio de relacionamento era de 2,8 anos. Por esse motivo, os resultados podem não representar da mesma maneira casais mais velhos ou pessoas que mantêm relações há mais tempo.
Outro ponto é que a pesquisa identificou associações, mas não demonstrou uma relação de causa e efeito. Como as informações foram fornecidas pelos próprios participantes, não é possível afirmar que o estresse tenha sido diretamente responsável pela redução nas avaliações. Cansaço, alterações na comunicação e mudanças na interação entre os parceiros também podem ter contribuído para as respostas registradas.
Na avaliação de Yilmaz, os resultados recomendam cautela ao interpretar momentos pontuais de menor proximidade emocional. Uma redução no amor, na paixão ou na intimidade ao fim de um dia particularmente difícil pode estar relacionada à pressão acumulada fora do relacionamento, e não necessariamente a uma deterioração do vínculo. Considerar as circunstâncias enfrentadas durante aquele dia pode ajudar a diferenciar um efeito passageiro do estresse de um problema persistente na relação.








