Pesquisadores da Universidade Sun Yat-sen e do Laboratório de Ciência e Engenharia Marinha do Sul de Guangdong registraram, por meio de filmagens em vídeo, um comportamento inédito do peixe Scalicus engyceros, conhecido popularmente como peixe-corvo-armado, no fundo do Mar da China Meridional. A observação ocorreu durante expedições realizadas em três diferentes áreas da costa de Zhuhai, uma região de grande importância geológica e biológica na região, e revelou um movimento lateral e para trás do animal, comportamento que remete ao “moonwalking”, passo de dança popularizado pelo artista Michael Jackson.
Este comportamento, até então não registrado em outras espécies de peixes, foi documentado por meio de imagens que mostram o peixe apoiando-se nas estruturas de suas nadadeiras peitorais para se deslocar sobre o sedimento do fundo marinho. A descoberta foi publicada em julho na revista científica Ocean-Land-Atmosphere Research e representa uma mudança significativa no entendimento sobre as capacidades de locomoção de peixes de águas profundas.
O exemplar analisado pertence à espécie Scalicus engyceros, que faz parte de um grupo de peixes caracterizado por possuir raios peitorais livres — estruturas rígidas semelhantes a filamentos pequenos, separados da parte principal da nadadeira. Segundo os pesquisadores, esses raios podem ser utilizados como suporte para a movimentação no ambiente subaquático, especialmente no fundo do mar.
De acordo com Han Tian, pesquisador de doutorado na Universidade Sun Yat-sen e autor principal do estudo, a descoberta desafia paradigmas anteriores ao indicar que o peixe-de-água profunda, conhecido por sua morfologia especializada, também é capaz de caminhar lateralmente e, agora, também de se deslocar para trás. A espécie foi inicialmente descrita pelo zoólogo Albert Günther em 1872, mas a capacidade de caminhar lateralmente já era conhecida, enquanto o movimento para trás não havia sido observado até então.
Outro aspecto marcante observado na espécie são os barbilhões, pequenas estruturas semelhantes a um ancinho que se projetam do corpo do peixe. Essas estruturas auxiliam na exploração do sedimento em busca de alimento, embora dificultem a locomoção. Como explica Tian, esses barbilhões permitem que o peixe sonda o ambiente, detectando possíveis presas ou cavando no sedimento superficial para alimentação, tornando-o um predador adaptado às condições extremas do fundo oceânico.
A morfologia do peixe também contribui para sua fama de criatura incomum. Seu corpo apresenta uma combinação de características que remetem tanto a um peixe quanto a um camarão, o que lhe rendeu o apelido de “híbrido de peixe e camarão”. Além disso, seus grandes olhos, que parecem não detectar o veículo de pesquisa durante a aproximação, demonstram alguma sensibilidade à luz, sugerindo que a espécie possa ter alguma exposição luminosa em determinados momentos de seu ciclo de vida.
Durante as expedições, os cientistas também encontraram outros dois peixes-corvos vivos em diferentes pontos do Mar da China Meridional: Paraheminodus murrayi e Peristedion liorhynchus, o que levou à hipótese de que diferentes ambientes na região tenham favorecido a adaptação específica de cada espécie. Essa “especialização local” ocorre quando populações submetidas a condições ambientais particulares desenvolvem características que aumentam suas chances de sobrevivência naquele habitat.
A utilização de veículos de mergulho capazes de alcançar grandes profundidades foi fundamental para as filmagens, permitindo a observação de comportamentos que não podem ser detectados por meio de espécimes preservados. Segundo Tian, essa tecnologia amplia o entendimento sobre a vida nas profundezas oceânicas, um ambiente que ainda guarda muitos mistérios. Os veículos possibilitam não apenas a descoberta de novas espécies, mas também uma compreensão mais aprofundada de suas funções e comportamentos em seu habitat natural.
A equipe de pesquisa planeja aprofundar o estudo sobre a evolução dos apêndices semelhantes a rastelos, a locomoção e as estratégias de busca por alimento dessas espécies. Para os cientistas, compreender como esses comportamentos e adaptações evoluíram em ambientes extremos pode oferecer insights importantes sobre a evolução dos peixes de águas profundas e as condições que favorecem o surgimento de comportamentos pouco comuns na biologia marinha.








