Uma nova pesquisa publicada na revista Biology Letters nesta quarta-feira, dia 12 de agosto, aponta que aspectos do comportamento dos machos de uma espécie australiana de viúva-negra, conhecida como aranha-das-costas-vermelhas (Latrodectus hasselti), são influenciados por fatores genéticos. O estudo evidencia que, embora essas aranhas apresentem comportamentos marcantes durante o acasalamento, tais ações podem estar relacionadas a heranças genéticas específicas, diferenciando-se de espécies próximas, como a kaitipó (Latrodectus katipo), nativa da Nova Zelândia.
As espécies de viúvas-negras são notórias por praticarem o canibalismo sexual, comportamento que ocorre no momento do acasalamento. Nesse processo, o macho realiza um salto para trás em direção às presas da fêmea, numa tentativa de prolongar o ato sexual. Além disso, eles contraem o abdômen em uma manobra que, segundo os estudiosos, pode ajudar na sobrevivência à experiência de serem devorados vivos antes de completar a transferência de esperma. Após o acasalamento, os machos removem seus pedipalpos — órgãos responsáveis pela transferência dos espermas — inserindo-os na fêmea como uma espécie de tampão, impedindo que outros machos possam inseminar a mesma fêmea posteriormente.
Em contraste, a espécie da Nova Zelândia, a kaitipó, apresenta um comportamento completamente diferente. Seus machos realizam uma dança de acasalamento de forma respeitosa e tranquila, sem cambalhotas ou atos de canibalismo, demonstrando uma postura mais pacífica na hora do encontro sexual. Essa discrepância comportamental entre as espécies despertou o interesse dos pesquisadores, que passaram a investigar se fatores genéticos poderiam explicar essas diferenças.
Segundo a doutoranda em biologia comportamental Kardelen Özgün Uludağ, da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, o fato de essas espécies serem geneticamente próximas, mas apresentarem comportamentos tão distintos, torna o sistema de acasalamento uma questão intrigante para o estudo científico. As duas espécies podem ter se separado há menos de 100 mil anos, mas exibem características comportamentais e fisiológicas completamente diferentes, o que é considerado incomum em animais.
Para aprofundar a compreensão do papel da genética nesses comportamentos, a equipe de pesquisadores realizou experimentos envolvendo cruzamentos entre as espécies. Fêmeas da kaitipó foram expostas a machos de costas-vermelhas, que eram suficientemente próximos geneticamente para gerar híbridos. Assim, cruzaram-se fêmeas híbridas com machos de ambas as espécies, o que possibilitou observar os comportamentos dos machos geneticamente modificados.
Os machos híbridos foram então colocados para acasalar com fêmeas da kaitipó, e os pesquisadores monitoraram a frequência de comportamentos específicos, como cambalhotas e contrações abdominais. Os resultados mostraram que esses comportamentos não estão fortemente ligados à genética, já que os machos híbridos apresentaram esses comportamentos em proporções variadas, às vezes realizando um, às vezes outro, ou ambos. Além disso, análises genéticas indicaram que os comportamentos de acasalamento parecem estar associados aos cromossomos X, dos quais as fêmeas possuem dois, enquanto os machos apenas um. A herança das cambalhotas mostrou-se recessiva, sugerindo um padrão de transmissão mais complexo, possivelmente influenciado por múltiplos genes ou pelo comportamento das fêmeas.
A pesquisa também reforça que, apesar da fama de canibalismo, apenas algumas espécies de viúvas-negras, incluindo as australianas, praticam esse comportamento de forma frequente. Ainda assim, os autores do estudo destacam a importância de ampliar os estudos para outras espécies do gênero Latrodectus, visando compreender melhor as variações comportamentais e suas possíveis origens genéticas.
A investigação contribui para o entendimento do comportamento sexual de aracnídeos e demonstra que fatores genéticos desempenham um papel relevante, embora não exclusivo, na determinação de ações específicas durante o acasalamento.






