Um episódio inédito na história da avifauna africana ocorreu quando, pela primeira vez, um vídeo do cuco-picanço-de-ganges (Lalage melanoptera) foi registrado, após mais de 13 anos sem avistamentos confirmados. A espécie, conhecida por seu nome extenso e aparência vibrante, havia sido considerada “perdida” pela comunidade científica devido à ausência de registros desde 2010. Este avanço foi possível graças à perseverança de pesquisadores durante uma expedição às florestas tropicais da África Ocidental, especificamente no Parque Nacional de Taï, na Costa do Marfim.
A equipe composta pelos especialistas Stephanie Bartlett e Paulo Ditzel mantinha a esperança de localizar a ave mesmo após quase uma década sem sucesso. Ambos participaram de uma expedição que já durava seis meses na região, conhecida por sua biodiversidade e por ser habitat de diversas espécies ameaçadas. Apesar das baixas probabilidades, eles continuaram buscando, alimentando uma esperança de que o pássaro pudesse ainda estar vivo na floresta.
Segundo relato dos pesquisadores ao IFLScience, a possibilidade de encontrar o cuco-picanço-de-gana era considerada remota, o que levou-os a brincar sobre o tema durante as caminhadas na mata. No entanto, em uma tarde, a sorte lhes sorriu quando avistaram o brilho das penas coloridas da ave, que se revelou na copa das árvores. A descoberta proporcionou uma oportunidade única de documentar a espécie, que até então tinha sido vista apenas em registros fotográficos feitos em 2013.
A filmagem, capturada por Bartlett, representa o primeiro registro audiovisual conhecido do cuco-picanço-de-gana na natureza. A ave apresenta cores vibrantes, o que torna difícil compreender por que ela permaneceu desaparecida por tanto tempo. A espécie habita as copas das árvores em regiões que abrangem Serra Leoa, Libéria, Gana e Costa do Marfim. Entretanto, seu habitat natural vem sendo ameaçado pelo desmatamento causado pela expansão agrícola, especialmente para o cultivo de cacau, o que tem contribuído para a redução de suas populações.
A redescoberta do pássaro reforça a importância de esforços de conservação e de monitoramento de espécies consideradas “perdidas”. Atualmente, a lista de aves em risco de desaparecimento na África conta com 126 espécies, incluindo o cuco-picanço-de-gana, que foi removido dessa condição após o avistamento e registro em vídeo. Essas ações fazem parte da iniciativa Search for Lost Birds, uma parceria entre a Re:wild, a American Bird Conservancy e a BirdLife International, dedicada a localizar espécies raras ou consideradas extintas na natureza.
Além do sucesso com o cuco-picanço-de-gana, a iniciativa já conseguiu registrar outros casos de espécies consideradas desaparecidas, como o beija-flor-de-santa-marta (Campylopterus phainopeplus). Este pássaro, que foi documentado inicialmente em 1946, voltou a ser avistado e fotografado em 2010 e, mais recentemente, em 2022, na Colômbia, demonstrando o impacto positivo dos esforços de conservação e pesquisa na recuperação de espécies ameaçadas. A descoberta na África reforça a importância de ações contínuas para proteger a biodiversidade e monitorar espécies em risco de extinção, especialmente em regiões onde o desmatamento e a perda de habitat continuam a ameaçar a sobrevivência da fauna local.








