A cantora Luísa Sonza emocionou os fãs ao falar sobre a relação conturbada entre os pais. Apesar de afirmar que o conflito não envolve diretamente sua vida, a artista admitiu que a situação “machuca muito” e que este tem sido um momento delicado para toda a família.
A repercussão do relato levantou um debate sobre os impactos emocionais que desentendimentos familiares podem causar mesmo na vida adulta. Segundo a neurocientista e analista emocional Telma Abrahão, especialista em traumas, esse tipo de sofrimento é mais comum do que muitas pessoas imaginam.
De acordo com a especialista, o cérebro não registra apenas experiências individuais, mas também o sofrimento de pessoas com quem existe um forte vínculo afetivo.
“Quando existe um conflito entre pai e mãe, o cérebro do filho dificilmente consegue permanecer neutro. Ainda que seja um adulto e tenha construído sua própria vida, existe uma memória emocional que continua conectada ao sistema familiar. O sofrimento não está apenas no fato de assistir a uma briga, mas na sensação inconsciente de que uma parte da própria história está em desequilíbrio”, explica.
Telma afirma que a infância tem papel fundamental na forma como o cérebro interpreta sentimentos de segurança, pertencimento e proteção. Por isso, novos episódios de tensão entre os pais podem reativar emoções antigas, mesmo muitos anos depois.
“Os vínculos familiares ficam registrados em regiões cerebrais relacionadas à sobrevivência emocional. Quando uma pessoa presencia novamente um conflito importante entre aqueles que representam suas referências afetivas, o cérebro pode reagir como se precisasse proteger esse vínculo outra vez. Muitas pessoas não entendem por que choram tanto nessas situações, mas o corpo está acessando memórias emocionais, não apenas lembranças conscientes”, diz.
Outro ponto destacado pela especialista é o sentimento de culpa que pode surgir entre os filhos, inclusive na vida adulta.
“É muito comum que filhos, mesmo adultos, sintam a necessidade de consertar relações que não pertencem a eles. Existe uma tendência de assumir responsabilidades emocionais que nunca deveriam ter sido suas. Isso gera ansiedade, exaustão e um sentimento constante de impotência, porque ninguém consegue resolver conflitos que pertencem ao casal”, afirma.
Para Telma Abrahão, manifestações públicas como a de Luísa Sonza ajudam a ampliar a discussão sobre um tema que costuma ser associado apenas à infância.
“A maturidade não apaga a necessidade humana de sentir que sua base emocional está em paz. Crescer não significa deixar de ser afetado pelas pessoas que construíram a nossa história. Quando alguém consegue reconhecer essa dor sem mascará-la, abre espaço para compreender que acolher as próprias emoções também faz parte do processo de cura”, conclui.








