A 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, um dos eventos mais tradicionais e de maior relevância no cenário cinematográfico nacional, teve sua realização confirmada após passar por um momento de incerteza que quase resultou em seu cancelamento. O festival, que começa nesta sexta-feira (11/9) e se estenderá por nove dias, traz uma programação diversificada de longas e curtas-metragens produzidos no Distrito Federal e em outros estados do país, além de promover debates e atividades culturais voltadas ao cinema nacional.
A realização da edição deste ano quase não ocorreu devido à falta de recursos financeiros essenciais. Em agosto, o evento foi temporariamente cancelado, após meses de dificuldades relacionadas aos repasses públicos necessários para a sua viabilização. A situação veio à tona por meio de reportagens do portal Metrópoles, que ouviram produtores e participantes envolvidos na organização do festival. Segundo informações divulgadas, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec-DF) deveria ter efetuado, em maio, o pagamento de R$ 1,5 milhão à organização do evento, conforme previsto no planejamento trienal da gestão compartilhada entre a pasta e o Instituto Alvorada Brasil. No entanto, até o início de agosto, esse repasse ainda não havia sido realizado, o que gerou uma crise que afetou diretamente cerca de 40 profissionais que trabalhavam desde março para garantir a realização do festival, muitos dos quais estavam sem receber seus salários.
A falta do financiamento levou a Secretaria de Cultura a anunciar, em 10 de agosto, que o festival não aconteceria em 2026, uma decisão que gerou grande repercussão negativa nas redes sociais, especialmente entre artistas e profissionais do audiovisual de todo o país. No dia seguinte, essa decisão foi revertida após a mobilização e a pressão de diversos setores do setor cultural. O governo do Distrito Federal garantiu os recursos necessários para a realização do evento, permitindo que a edição fosse mantida e que o festival pudesse continuar sua tradição, que já dura mais de seis décadas.
Criado em 1965, o Festival de Brasília é considerado o mais antigo do Brasil e, salvo interrupções ocasionais, só deixou de ser realizado entre 1972 e 1974, período marcado pela censura imposta pelo regime militar. A edição deste ano é especialmente significativa para os organizadores, que celebraram a sua continuidade. Os diretores Denise Moraes e Bruno Fatumbi Torres abriram a programação com a exibição do filme “A Pele Morta”, uma obra protagonizada pelo ator uruguaio César Troncoso e pelo ator indígena Luan Iturbe. Segundo Denise Moraes, o festival representa um patrimônio cultural imaterial tanto para Brasília quanto para o país, e ela expressou orgulho em participar da abertura desta edição.
Bruno Torres destacou o valor do filme, que remete a questões ancestrais e à memória de seu pai, Geraldo Moraes, professor da Universidade de Brasília (UnB) e idealizador do projeto. Para ele, a exibição do longa em um evento de tamanha relevância simboliza a superação de diversos desafios enfrentados ao longo do processo de produção. Além disso, a equipe do filme “Mapas”, gravado no Distrito Federal como uma homenagem à memória esquecida de Brasília, também comemorou a oportunidade de exibir sua obra na Mostra Brasília, marcada para o dia 17 de setembro. O filme, que conquistou diversos prêmios em festivais nacionais nos últimos meses, retrata a cidade e sua história de forma poética e reflexiva.
A produção do filme expressou a angústia vivida diante do risco de cancelamento. Alisson Machado, produtor de “Mapas”, afirmou que acompanhar de perto a possibilidade de não realização do festival foi angustiante, reforçando a importância do evento para a cidade. Segundo ele, exibir o filme na sala do Cine Brasília representa não apenas uma vitória artística, mas também um ato de resistência e de valorização do espaço cultural local.
A programação completa do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro está disponível para o público, que poderá conferir uma mostra representativa da diversidade da produção cinematográfica nacional, consolidando o evento como um marco cultural e uma plataforma de resistência e reflexão para o cinema brasileiro.







