Minas Gerais figura como o quinto estado brasileiro com a menor taxa de notificação de possíveis doadores de órgãos por milhão de habitantes, segundo dados do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT) de 2025, divulgado pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Este índice é fundamental para ampliar o número de doações e, consequentemente, os transplantes, que atualmente atendem uma demanda significativa de pacientes em espera.
O caso de Djavan Yuri dos Santos, de 33 anos, exemplifica a importância do processo de identificação de doadores. Após ser diagnosticado com câncer que comprometeu seu fígado, ele recebeu um transplante realizado em março deste ano, que lhe devolveu a vida. Djavan relata que encontrou força em seu filho de 11 anos e reconhece que o procedimento foi crucial para sua recuperação, ressaltando a relevância de histórias como a dele para conscientizar a sociedade sobre a doação de órgãos.
A etapa de notificação de potenciais doadores ocorre dentro dos hospitais, onde profissionais de saúde avaliam pacientes com perfil clínico compatível com doação e solicitam autorização às famílias. No entanto, Minas enfrenta desafios nesse processo, apresentando uma taxa de notificações de 51 por milhão de habitantes, abaixo da média nacional de 74,7. Em comparação com outros estados, Minas supera apenas Pará (41,9), Amazonas (40,7), Mato Grosso (32,4) e Amapá, que não possui estrutura para realizar transplantes, conforme dados da ABTO. Estados como Rondônia (122,1), Paraná (106,1) e Distrito Federal (104,8) lideram o ranking nacional nesse aspecto.
Apesar de Minas ser o segundo maior em número absoluto de doações — com 985 procedimentos realizados em 2025 — sua posição proporcional à população cai para a sétima colocação. Atualmente, 4.447 pacientes aguardam por um transplante no estado, de acordo com o Ministério da Saúde. O baixo índice de notificações é apontado como um dos principais obstáculos para ampliar essa quantidade, mesmo com a recusa familiar em Minas sendo de 29,4%, abaixo da média nacional de 45%. Segundo o coordenador do centro de Transplante de Fígado da Santa Casa de Belo Horizonte e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Agnaldo Soares Lima, essa menor taxa de recusa indica maior conscientização da população mineira sobre o tema.
A notificação de potenciais doadores, contudo, não garante a doação de órgãos, pois fatores como recusa familiar e contraindicações médicas podem impedir o procedimento. Ainda assim, o aumento na identificação de potenciais doadores é considerado essencial para ampliar o número de transplantes. Lima destaca que o debate sobre doação de órgãos deve ser intensificado em diferentes camadas da sociedade, especialmente nas escolas, para desmistificar o tema desde a infância.
O governo de Minas reconhece a necessidade de avançar nesse campo. A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) afirmou que o tema está contemplado no Plano Estadual de Doação e Transplantes (PEDT) 2025–2029, que prevê a ampliação das notificações e a identificação de mortes encefálicas com potencial de doação, com um investimento anual estimado em R$ 12,3 milhões. Entre as ações estratégicas, está o fortalecimento das equipes hospitalares e comissões específicas, além de capacitações e melhorias na logística de transporte de órgãos, incluindo o suporte aéreo coordenado pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais.
A campanha de conscientização também ganhará espaço em Belo Horizonte, com uma caminhada promovida pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC-UFMG) no dia 19 de setembro, na Praça Carlos Chagas. O evento, aberto ao público, contará com depoimentos de profissionais e pacientes transplantados, além de atividades educativas e apresentações culturais, buscando aproximar a sociedade do tema da doação de órgãos.
Desde 1969, quando realizou o primeiro transplante de órgãos no estado, o HC-UFMG mantém uma trajetória de destaque na área, atualmente credenciado para procedimentos de coração, rins, fígado, medula óssea, pulmão e córneas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Outros hospitais universitários federais em Minas, como o HU-UFJF, HC-UFU e HC-UFTM, também realizam transplantes, respondendo por mais de 230 das mais de 600 operações realizadas no estado até o momento.
Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2026, Minas realizou 631 dos 6.404 transplantes efetuados no país, mantendo a segunda colocação nacional em número absoluto. O avanço nas ações de identificação e notificação de doadores é considerado imprescindível para melhorar esse cenário, especialmente diante das diferenças territoriais e demográficas do estado, que dificultam a implementação uniforme de estratégias de doação.
A Secretaria de Saúde de Minas Gerais reforça que o fortalecimento das ações de capacitação, a ampliação da infraestrutura e o aprimoramento na logística de transporte de órgãos são prioridades para aumentar as taxas de notificação e, por consequência, salvar mais vidas por meio de transplantes.









