Estudo publicado nesta semana na revista JAMA Network Open revela que jovens com diversidade sexual e de gênero têm maior propensão a buscar atendimento em serviços de saúde mental, sobretudo em unidades de emergência, em comparação com seus pares cisgêneros e heterossexuais. A pesquisa destaca que essa diferença aumenta ao longo do desenvolvimento, tornando-se mais evidente na fase adulta jovem.
A análise foi conduzida com base em dados do Estudo Longitudinal de Desenvolvimento Infantil de Quebec, que acompanha 1.326 indivíduos nascidos entre outubro de 1997 e julho de 1998 na província canadense. Desses, 340 foram classificados como jovens com diversidade sexual ou de gênero, considerados no estudo como grupos LGBTQIAPN+. Os pesquisadores cruzaram informações coletadas ao longo do acompanhamento, que começou na infância e se estendeu até os 23 anos, com registros do sistema de saúde da província para identificar o uso de diferentes tipos de atendimento.
Ao considerar fatores como sexo de nascimento e condição socioeconômica, os pesquisadores observaram que o grupo LGBTQIAPN+ apresentou uma probabilidade 41% maior de utilizar serviços ambulatoriais de saúde mental ao longo de toda a faixa etária estudada, além de quase dobrar a chance de recorrer a atendimentos de emergência. Essas diferenças tornaram-se mais marcantes na fase adulta jovem, especialmente entre os 18 e 23 anos, período em que a maior parte dos dados foi analisada.
Durante esse período, 40,9% dos jovens LGBTQIAPN+ utilizaram serviços ambulatoriais de saúde mental, enquanto esse índice foi de 30,6% entre os jovens cisgêneros e heterossexuais. Quanto às visitas às unidades de emergência por questões relacionadas à saúde mental, a diferença foi ainda mais significativa: 15% dos jovens LGBTQIAPN+ recorreram a esses serviços, contra 7,6% do grupo de comparação. Após ajustes estatísticos, a probabilidade de procurar atendimento emergencial permaneceu quase duas vezes maior para os jovens LGBTQIAPN+.
Entre os motivos registrados para as emergências, destacaram-se episódios de ansiedade e crises situacionais. No que diz respeito às internações hospitalares por problemas de saúde mental, 7,4% dos jovens LGBTQIAPN+ foram hospitalizados, enquanto o índice no grupo cisgênero e heterossexual foi de 4,8%. Contudo, essa diferença não foi considerada estatisticamente significativa após os ajustes, o que impede a afirmação de uma maior propensão à internação nesse grupo.
Os autores ressaltam que o estudo é observacional, não estabelecendo causalidade entre orientação sexual, identidade de gênero e problemas de saúde mental. Entre os fatores que podem contribuir para as desigualdades identificadas, estão a discriminação, o bullying e o estresse decorrente da condição de minoria. Por outro lado, o apoio social é apontado como possível fator de proteção.
Os pesquisadores também interpretam que a maior procura por atendimentos de emergência pode indicar que as necessidades de saúde mental dessas populações não estão sendo atendidas de forma adequada na atenção primária, levando a crises que demandam intervenções emergenciais. Ainda assim, o estudo apresenta limitações, como a disponibilidade parcial de registros de atendimentos, a avaliação de orientação sexual e identidade de gênero apenas aos 23 anos e o número reduzido de participantes com diversidade de gênero, o que limita análises detalhadas de subgrupos específicos.
Por fim, os autores reforçam a importância de oferecer acesso a serviços de saúde mental desde a infância, de modo a prevenir o agravamento de problemas emocionais e comportamentais, evitando que eles evoluam para situações que exijam atendimentos de emergência.








